segunda-feira, 19 de julho de 2021

Colapso - Book trailer 1

Saiu o primeiro book trailer do meu novo livro. Espero que gostem.



 

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Panorama

Às vezes eu esqueço que sou lido. Daí um dia abro minha caixa de entrada e me deparo com: Adoro as coisas que você escreve. Por que parou? Respondo que, na verdade, não parei, muito pelo contrário, acabo de publicar Para Elisa, uma novela de aproximadamente 20.000 palavras, e voltei a trabalhar em Estrelas Mortas, que em sua versão original foi uma novela, mas está prestes a se tornar um romance. E há as outras coisas, claro: um romanção que de vez em quando aumento mais, e um ou outro conto, alguns que concluo, outros que não. Mas é verdade que deixei o blog meio largado, e minha leitora confessou que só me conhecia daqui.

Achei curioso que ela conhecesse meus textos justamente do lugar que considero mais improvável: um blog subnutrido que, sim, já teve seus momentos, mas que hoje nada mais é do que uma forma de exercitar o desapego criativo. Não me considero cronista, não tenho muita vocação para o gênero. Às vezes tento escrever algo sobre determinado tema “do momento”, mas a triste verdade é que em geral eu não me importo. Sou introspectivo, rabugento, meio caipira, meio selvagem, características que costumam resultar em cronistas mais odiados que qualquer outra coisa — Não que eu me importe: Mencken e Nelson Rodrigues são dois homens cuja obra admiro, não me importaria de ser tão odiado quanto eles foram (são).

Mas prometi que voltaria, e voltarei. Certamente “nada será como antes” (abraço, Milton), mas vou tentar aparecer por aqui pelo menos duas vezes por semana para que os eventuais leitores deste blog saibam que sim, “ainda estou aqui”. Para os que preferem me acompanhar “bem de perto” (como era mesmo o nome daquele personagem de King... Norman?), ainda tô sendo manipulado pelo Instagram; e na minha Página de Autor, da Amazon, vocês podem ficar sabendo em primeira mão quando algo novo aparecer por lá: é só clicar em seguir e voilá.

Acho que é isso. Vejo vocês dentro de alguns dias.

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O fim de uma era pessoal


Ouvíamos seu grito de longe: “Olha o dooooooooooooce!”, e era como se viesse de todos os lados ao mesmo tempo. Ele sempre gritava duas vezes: na primeira, “Olha o dooooooooooooooce!”; na segunda, algo que até hoje soa em minha imaginação e memória como “Olha o doce-ah!”

Era sinal de que nos aproximávamos das duas da tarde. Lá fora, o sol rachava ainda mais o barro batido, chão de nossa rua; e dentro de casa minha mãe corria catando moedas.

“Rápido, rápido”, dizia ofegante, “o véio do doce!”

E era exatamente assim que o víamos já naquela época: o véio do doce.

Ela me punha em mãos algumas moedas e dizia:

“Compre um de coco. De coco, tá? De coco.”

 Ela sempre enfatizava o sabor.

Eu saía de casa correndo, sem camisa, desesperado como se minha vida dependesse disso, às vezes alcançando-o quase a dobrar a esquina com seu carrinho.

“Seu galego, tem de quê?”, eu perguntava os sabores mesmo sabendo que 1., minha mãe queria de coco e 2., os sabores eram sempre coco e batata.

Pedia então de coco. Ele cortava o pedaço com sua espátula (ou seria uma faca?), raspando a superfície de alumínio, colocava o doce em um pedaço de papel dobrado, eu lhe entregava as moedinhas tilintantes e voltava pra casa, com cuidado para não derrubar a guloseima. Sendo eu um cliente fiel, ele muitas vezes caprichava, e antes de chegar em casa eu já havia devorado algum pedaço das bordas do doce de coco da minha mãe.

Apenas uma vez comprei de batata, contrariando-a. É que queria provar aquele doce branco, de aparência agradável e textura cremosa, e sabia que ela jamais o permitiria. Tive que mentir:

“Só tinha de batata”, falei, evitando encará-la.

Não sei se ela acreditou ou apenas fingiu acreditar, mas naquela tarde comemos doce de batata, e eu descobri que preferia o de coco.

Antonio Ramos de Oliveira, o “galego do doce”, faleceu. Não sei de quê, não sei se ontem ou hoje (estou longe no tempo e no espaço, as informações aqui me chegam com algum atraso), mas vi nas redes sociais: foi adoçar o céu. Nascido em 1939, não sobreviveu a 2020, o ano da peste. Na imagem que lhe prestava homenagens e comunicava seu passamento, uma máquina do tempo: sua foto, com seu bigode branco, seu chapéu de palha, sua pele queimada de sol. Lembrei não só das inúmeras duas da tarde, mas também das crianças da rua que o imitavam gritando, com ele, “Olha o dooooooooooce!”, ou pulando à sua volta com alegria (seu Dadá, outra lenda do bairro, mas no caso um vendedor de sorvete, era o único que causava efeito semelhante na molecada).

Foi uma sensação estranha por vários motivos: porque percebi que de algum modo o “galego do doce” marca a passagem do tempo em minha própria história. Quando eu era criança, ele passava todos os dias, queimado de sol e sem chapéu; quando eu era adolescente, ele passava de vez em quando e com chapéu; e adulto, poucas vezes o vi passar. Já se vão 35 anos. Talvez o bairro tenha ficado maior ou suas forças diminuído, não sei, mas sei que me alegrava com o fato de sabê-lo vivo. Brincava dizendo que “caminhada faz mesmo bem à saúde”. Descobri-lo morto, agora, me obriga a escrever alguma coisa. E não sendo o suficiente, sugeri a Sandra, minha amiga, que tentasse fazer ecoar, hoje, pelas ruas de Tibiri, o imortal grito de “Olha o dooooooooooooce! Olha o doce-ah!”, o que a meu ver seria uma bela e merecida homenagem. Mesmo que o grito conjunto não ocorra, me agrada imaginá-lo. Que seu Antonio descanse em paz.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Essas pessoas esquisitas que nunca rabiscam seus livros

Ontem peguei meu exemplar de As Dores do Mundo, do Schopenhauer, e reli as primeiras páginas. Já no primeiro capítulo encontrei anotações sobre minha novela Estrelas Mortas (o narrador é de algum modo um discípulo do pessimista alemão), observações sobre determinada frase ou parágrafo, uma ou outra nota pessoal do tipo “pensar a respeito” ou um simples “risos” ao lado de algum trecho particularmente engraçado. Foi um duplo prazer: a releitura de um filósofo que gosto — e que me provoca, faz rir — e as anotações do leitor que eu era quando li aquele livro pela primeira vez.

E terminei o primeiro capítulo refletindo sobre essas pessoas esquisitas que jamais rabiscam seus livros. Conheço várias: o livro é um item sagrado, que leem com todo o cuidado do mundo, como se algum movimento brusco ou um pouco mais duro pudesse reduzi-lo a pó.  Eu fui uma dessas pessoas quando tinha por volta dos 15 anos, mas 20 anos depois eu ando rabiscando até os livros da Cosac, que no Brasil viraram coisa de colecionador.

O que me transformou num rabiscador compulsivo não sei bem, mas talvez tenha sido a consciência de que ars longa, vita brevis; ou então um livro que certa vez me caiu em mãos, datado dos anos 30 e ainda em boas condições; talvez o livro que uma amiga me emprestou um dia e que estava cheio de anotações, e que me causou uma experiência de leitura até então inédita; talvez o conjunto de todas essas coisas.

Quando advoguei em defesa do rabisco em público pela primeira vez (Bar do Péla, Abril de 2006) só faltaram me chamar de nazista: livro não se rabisca, gritavam os colegas de mesa, depois disso o próximo passo é jogá-los na fogueira.

Mas eu dizia: Ei, ninguém aqui vai viver pra sempre, certo? Os homens passarão, os livros passarinho (Abraços, Quintana). De modo que voarão em direção a outros leitores, outros ninhos, e no caso de quem vai deixar herança (ou seja: vai MORRER e deixar os livros pra seja lá quem for), pense no seguinte: quem sobrar vai ter muito de você em suas anotações. E isso é fofo.

Continuarei, portanto, um rabiscador convicto, e seguirei sem entender essas pessoas esquisitas que jamais rabiscam seus livros. São como tardígrados e física quântica: jamais compreenderei por completo.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Brasil Surreal

Prenderam o Queiroz. Eu sei que vocês estão bem informados, a crônica não é sobre isso. A crônica é sobre verossimilhança.

É que o roteirista do Brasil não está pra brincadeira e Queiroz — respira fundo antes de ler o que vem em seguida, pois vou encher de vírgulas — foi encontrado na casa do advogado da família Bolsonaro, em um sítio em Atibaia; advogado esse que estaria de algum modo envolvido no Caso Evandro, também conhecido como As Bruxas de Guaratuba, que foi, grosso modo, o seqüestro e assassinato de um garoto de seis anos em um ritual de magia negra no início dos anos 90. Aparentemente, o tal advogado, segundo informa uma edição do Jornal do Brasil de 1992, resgatada e divulgada na rede social de certo jornalista, era membro divulgador da seita LUS — que foi responsável pelo sacrifício e emasculação de várias crianças em meados do início dos anos 90. Em sua casa, além do Queiroz, também encontraram — pois não falta humor ao nosso roteirista — um cartaz pedindo AI-5 ao lado de, pasme, pasme muito, duas miniaturas de Tony Montana, Tony Fucking Montana, o Scarface.

Em qual roteiro de ficção isso seria aceitável? Creio que nenhum. Fosse um filme, série ou livro, diríamos: “Ah, vá! Você quer que eu acredite que...”, mas é no Brasil, e a realidade brasileira é mais inacreditável do que qualquer obra de ficção.

Vou esperar que nos próximos capítulos apareça alguém com um dragão cuspidor de fogo ou algo que o valha, mas não um dragão qualquer: o nosso dragão será cor-de-rosa, terá chifre de unicórnio e, como estamos no Brasil, torcerá para o Sport Club Atibaia, um time cujo escudo e uniforme são na improvável cor de... laranja.