quinta-feira, 10 de maio de 2018

Correções

Se eu pudesse entrar numa máquina do tempo e voltar ao passado, iria até o final do ano de 1984, encontraria meu pai em algum bar de Santa Rita e lhe pagaria uma bebida. Diria: “Roberto, a Ninha está grávida, e em 2 de julho de 1985 serás pai. Teu filho terá uma saúde frágil, talvez em virtude da imaturidade do útero no qual germina, e uma tendência inata à introspecção. Em algum momento de sua vida descobrirá os livros, e decidirá ser escritor. Isso acontecerá de qualquer forma, não temos como evitar. Já tentei, dentro do que o paradoxo temporal mo permite, mas mesmo crescendo onde cresceu e nas circunstâncias em que cresceu, em algum momento um livro sempre lhe cai em mãos, e ele sempre decide ser escritor. Quanto a isso, repito, nada pode ser feito. Infelizmente, isso não é vantagem. Não conto como algo positivo. O amor aos livros e à Literatura pode destruir a vida de um homem. Melhor seria se teu filho se apaixonasse pelo dinheiro (melhor para ele, quero dizer), mas isso por algum motivo que nunca entendi muito bem nunca chega a acontecer. Não que ele não goste de dinheiro, isso seria hipocrisia, apenas que ele nunca terá o dinheiro como vetor de qualquer decisão.

Contudo, querido Roberto, há um conselho que posso te dar — na verdade, conhecendo o futuro como eu conheço, há vários, mas vou me limitar a dois que trarão resultados melhores do que os encontrados naquele que é o teu futuro atual, e o meu presente. Bom, em primeiro lugar, cuide de sua saúde. Por cuidar, quero dizer exatamente isso: cuide-se, esteja atento aos sinais do seu corpo e preserve-se na medida do possível. Você é uma dessas pessoas que nunca cai doente, e pessoas assim, quando caem, porque mesmo pessoas assim caem um dia, caem duma vez. Portanto, cuide-se. Não exagere nos prazeres nem creia-se imbatível. Lembre-se de Alexandre, o Grande.

A segunda é um conselho que dou em benefício de teu primogênito: ensine-lhe disciplina. Não estou dizendo para que sejas violento, longe disso, mas para que te imponhas com a autoridade a que tens direito: diga não quando tiver que dizer não, e suporte com resignação os gritos de protesto. Só não volte atrás, nunca, a não ser que estejas cometendo alguma injustiça. Crianças precisam aprender desde cedo a ouvir não. O “não”, nessa fase, é muito mais importante que o sim.

Um alerta: teu filho será teimoso, e terá desde cedo problemas com a autoridade. A boa notícia é que ele sempre se renderá a um argumento convincente. Então quando ele protestar, argumenta: diz que ele só terá a ganhar com a disciplina, enquanto pessoa e enquanto escritor. Que isso fará uma relevante diferença no caminho em direção ao êxito. Faz-lhe algum desafio — ele, como qualquer mula teimosa, adora se sentir desafiado — que prove, na prática, que a disciplina sempre traz os melhores resultados em qualquer empreendimento.

Por volta dos 11 anos, ele te dirá que é péssimo em matemática e está em vias de levar pau na escola. Esta será uma ótima oportunidade de fazê-lo entender o poder da disciplina, não deixe passar: senta com ele uma horinha durante alguns dias, pratica com ele as tais expressões numéricas cujas regras ele tem tanta dificuldade em entender. Se tudo der certo, talvez ele até largue essa obsessão pela Literatura e se apaixone pela Matemática mais cedo, quem sabe? Na linha do tempo a qual pertencemos, a Matemática será um amor tardio, mais pela compreensão de sua grandeza, e não terá nenhuma consequência prática em sua vida.

De todo modo, aproveita. Faz com que ele compreenda a causalidade entre disciplina e sucesso e ele se disciplinará sozinho. Do contrário, nada poderá ser feito: indisciplinado, transformará insetos em dragões. Problemas que nem mereciam ser assim considerados se transformarão em problemas monstruosos, insolúveis, e a luta em desigualdade contra a possibilidade de fracasso será uma constante. Também será impulsivo, tendente à dispersão e aos vícios, e terá uma autoestima oscilante e incompatível com a realidade.

É só o que te peço: disciplina, Roberto, disciplina. Ensine ao seu filho disciplina.”

E assim me despediria. De volta para o futuro. E ele, sem entender jamais a razão pela qual aquele desconhecido insistia tanto nessa história de disciplina, não me deixaria pagar a conta.