sexta-feira, 21 de abril de 2017

Das Manhãs

“Manhãs são para café e contemplação.”

(Chief Hopper)

Costumo acordar de mau humor. Não sei por que isso acontece, apesar de desconfiar do sono interrompido. Normalmente, vou melhorando conforme as horas passam: após 20 minutos de meditação, um banho quente, um desjejum leve e um café — tudo isso de preferência em silêncio ou ouvindo jazz —, meu humor costuma voltar ao normal. Não gosto de conversas matutinas, tampouco de barulhos em geral (moro em condomínio e aos sábados acordo cercado por uma orquestra infernal de furadeiras, martelos e música de péssima qualidade), e tenho sido assim desde que consigo me lembrar.

Se pudesse escolher, dormiria num bunker e só me disporia ao contato social de qualquer espécie após o meio dia, algo parecido com o que Salinger fazia — Aliás, devo dizer que se há um escritor com o qual me identifico em alguns aspectos pessoais, esse escritor é Salinger.

De todo modo, quase ninguém com quem já convivi compreende isso, e por não compreenderem não respeitam: algumas pessoas costumam acordar sorridentes, saudando o sol, falando pelos cotovelos, fazendo a noviça rebelde, e acham que há algum problema terrível te pondo sombrio apenas porque você quer ficar na sua até encontrar alguma disposição para o convívio.

É verdade que eu poderia iniciar alguma prática de PNL tentando reprogramar isso, mas sinceramente, sinceramente MESMO: não quero. Gosto de ser assim, acho até que é por isso que escrevo melhor pelas manhãs, quando estou mais introspectivo, ensimesmado. O maior problema ainda, como sugeri no parágrafo anterior, é fazer com que as pessoas com quem convivo compreendam e respeitem isso. Confesso que não é nada fácil.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Breves notas de dezembro

#1 Invejo na Raquel sua capacidade de concentração para escrever: com música, com alguém falando por perto, com o bebê chorando, interrupções. Nada disso funciona comigo. Quando se trata de escrever, tenho a capacidade de concentração mais volúvel de que se tem notícia. Curioso que com a leitura não seja assim: leio em meio a incêndios, se necessário.

#2 Termino o ano com 46 livros lidos (minha meta era 55) e pelo menos duas dezenas de leituras inacabadas. Somando-as talvez fechasse e até ultrapassasse a meta, mas não é o caso: simplesmente não a cumpri. Sim, poderia ter lido bem mais se não tivesse perdido tanto tempo vendo filmes, séries, redes sociais etc. Em 2017 tentarei compensar.

#3 Foi um bom ano: o ano em que me tornei pai e daí por diante (poderia escrever sobre novas experiências, amizades, descobertas etc., mas ter me tornado pai é o tipo de experiência que fagocita todas as outras).

#4 Artisticamente, entretanto, foi um ano medíocre: somando o que escrevi, creio que não preencheria 30 páginas do Word. O principal motivo é o de sempre: indisciplina. O resultado é que ainda não terminei meu romance, que o adiantei pouco, que me distanciei dos personagens, que etc.

#5 Ainda assim, participei da antologia O demônio de cada um, organizada pelo meu conterrâneo Bruno Gaudêncio e ao lado de muita gente boa, o que foi bem divertido.

#6 Também foi o ano dos filmes. Redescobri minha velha paixão por filmes antigos (abandonada por teimosia), vi quase um por dia, às vezes até mais, hábito que pretendo manter com a pretensão de somar a ele uma breve resenha aqui no blog.

#7 Minha relação com o Rio de Janeiro continua ambígua, assim como minha relação com o Brasil. Por mim, cairia fora (para algum lugar no interior da américa latina, de repente me tornar vizinho do Belchior), mas há muito o que considerar, e isso me paralisa.

#8 Desprezo o vício. Oh, como eu o desprezo!

#9 Cada dia mais convencido de que a pressa é a maior inimiga do escritor.

#10 Quanto mais velho fico, menos certezas eu tenho.