quarta-feira, 5 de agosto de 2020

O fim de uma era pessoal


Ouvíamos seu grito de longe: “Olha o dooooooooooooce!”, e era como se viesse de todos os lados ao mesmo tempo. Ele sempre gritava duas vezes: na primeira, “Olha o dooooooooooooooce!”; na segunda, algo que até hoje soa em minha imaginação e memória como “Olha o doce-ah!”

Era sinal de que nos aproximávamos das duas da tarde. Lá fora, o sol rachava ainda mais o barro batido, chão de nossa rua; e dentro de casa minha mãe corria catando moedas.

“Rápido, rápido”, dizia ofegante, “o véio do doce!”

E era exatamente assim que o víamos já naquela época: o véio do doce.

Ela me punha em mãos algumas moedas e dizia:

“Compre um de coco. De coco, tá? De coco.”

 Ela sempre enfatizava o sabor.

Eu saía de casa correndo, sem camisa, desesperado como se minha vida dependesse disso, às vezes alcançando-o quase a dobrar a esquina com seu carrinho.

“Seu galego, tem de quê?”, eu perguntava os sabores mesmo sabendo que 1., minha mãe queria de coco e 2., os sabores eram sempre coco e batata.

Pedia então de coco. Ele cortava o pedaço com sua espátula (ou seria uma faca?), raspando a superfície de alumínio, colocava o doce em um pedaço de papel dobrado, eu lhe entregava as moedinhas tilintantes e voltava pra casa, com cuidado para não derrubar a guloseima. Sendo eu um cliente fiel, ele muitas vezes caprichava, e antes de chegar em casa eu já havia devorado algum pedaço das bordas do doce de coco da minha mãe.

Apenas uma vez comprei de batata, contrariando-a. É que queria provar aquele doce branco, de aparência agradável e textura cremosa, e sabia que ela jamais o permitiria. Tive que mentir:

“Só tinha de batata”, falei, evitando encará-la.

Não sei se ela acreditou ou apenas fingiu acreditar, mas naquela tarde comemos doce de batata, e eu descobri que preferia o de coco.

Antonio Ramos de Oliveira, o “galego do doce”, faleceu. Não sei de quê, não sei se ontem ou hoje (estou longe no tempo e no espaço, as informações aqui me chegam com algum atraso), mas vi nas redes sociais: foi adoçar o céu. Nascido em 1939, não sobreviveu a 2020, o ano da peste. Na imagem que lhe prestava homenagens e comunicava seu passamento, uma máquina do tempo: sua foto, com seu bigode branco, seu chapéu de palha, sua pele queimada de sol. Lembrei não só das inúmeras duas da tarde, mas também das crianças da rua que o imitavam gritando, com ele, “Olha o dooooooooooce!”, ou pulando à sua volta com alegria (seu Dadá, outra lenda do bairro, mas no caso um vendedor de sorvete, era o único que causava efeito semelhante na molecada).

Foi uma sensação estranha por vários motivos: porque percebi que de algum modo o “galego do doce” marca a passagem do tempo em minha própria história. Quando eu era criança, ele passava todos os dias, queimado de sol e sem chapéu; quando eu era adolescente, ele passava de vez em quando e com chapéu; e adulto, poucas vezes o vi passar. Já se vão 35 anos. Talvez o bairro tenha ficado maior ou suas forças diminuído, não sei, mas sei que me alegrava com o fato de sabê-lo vivo. Brincava dizendo que “caminhada faz mesmo bem à saúde”. Descobri-lo morto, agora, me obriga a escrever alguma coisa. E não sendo o suficiente, sugeri a Sandra, minha amiga, que tentasse fazer ecoar, hoje, pelas ruas de Tibiri, o imortal grito de “Olha o dooooooooooooce! Olha o doce-ah!”, o que a meu ver seria uma bela e merecida homenagem. Mesmo que o grito conjunto não ocorra, me agrada imaginá-lo. Que seu Antonio descanse em paz.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Essas pessoas esquisitas que nunca rabiscam seus livros

Ontem peguei meu exemplar de As Dores do Mundo, do Schopenhauer, e reli as primeiras páginas. Já no primeiro capítulo encontrei anotações sobre minha novela Estrelas Mortas (o narrador é de algum modo um discípulo do pessimista alemão), observações sobre determinada frase ou parágrafo, uma ou outra nota pessoal do tipo “pensar a respeito” ou um simples “risos” ao lado de algum trecho particularmente engraçado. Foi um duplo prazer: a releitura de um filósofo que gosto — e que me provoca, faz rir — e as anotações do leitor que eu era quando li aquele livro pela primeira vez.

E terminei o primeiro capítulo refletindo sobre essas pessoas esquisitas que jamais rabiscam seus livros. Conheço várias: o livro é um item sagrado, que leem com todo o cuidado do mundo, como se algum movimento brusco ou um pouco mais duro pudesse reduzi-lo a pó.  Eu fui uma dessas pessoas quando tinha por volta dos 15 anos, mas 20 anos depois eu ando rabiscando até os livros da Cosac, que no Brasil viraram coisa de colecionador.

O que me transformou num rabiscador compulsivo não sei bem, mas talvez tenha sido a consciência de que ars longa, vita brevis; ou então um livro que certa vez me caiu em mãos, datado dos anos 30 e ainda em boas condições; talvez o livro que uma amiga me emprestou um dia e que estava cheio de anotações, e que me causou uma experiência de leitura até então inédita; talvez o conjunto de todas essas coisas.

Quando advoguei em defesa do rabisco em público pela primeira vez (Bar do Péla, Abril de 2006) só faltaram me chamar de nazista: livro não se rabisca, gritavam os colegas de mesa, depois disso o próximo passo é jogá-los na fogueira.

Mas eu dizia: Ei, ninguém aqui vai viver pra sempre, certo? Os homens passarão, os livros passarinho (Abraços, Quintana). De modo que voarão em direção a outros leitores, outros ninhos, e no caso de quem vai deixar herança (ou seja: vai MORRER e deixar os livros pra seja lá quem for), pense no seguinte: quem sobrar vai ter muito de você em suas anotações. E isso é fofo.

Continuarei, portanto, um rabiscador convicto, e seguirei sem entender essas pessoas esquisitas que jamais rabiscam seus livros. São como tardígrados e física quântica: jamais compreenderei por completo.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Brasil Surreal

Prenderam o Queiroz. Eu sei que vocês estão bem informados, a crônica não é sobre isso. A crônica é sobre verossimilhança.

É que o roteirista do Brasil não está pra brincadeira e Queiroz — respira fundo antes de ler o que vem em seguida, pois vou encher de vírgulas — foi encontrado na casa do advogado da família Bolsonaro, em um sítio em Atibaia; advogado esse que estaria de algum modo envolvido no Caso Evandro, também conhecido como As Bruxas de Guaratuba, que foi, grosso modo, o seqüestro e assassinato de um garoto de seis anos em um ritual de magia negra no início dos anos 90. Aparentemente, o tal advogado, segundo informa uma edição do Jornal do Brasil de 1992, resgatada e divulgada na rede social de certo jornalista, era membro divulgador da seita LUS — que foi responsável pelo sacrifício e emasculação de várias crianças em meados do início dos anos 90. Em sua casa, além do Queiroz, também encontraram — pois não falta humor ao nosso roteirista — um cartaz pedindo AI-5 ao lado de, pasme, pasme muito, duas miniaturas de Tony Montana, Tony Fucking Montana, o Scarface.

Em qual roteiro de ficção isso seria aceitável? Creio que nenhum. Fosse um filme, série ou livro, diríamos: “Ah, vá! Você quer que eu acredite que...”, mas é no Brasil, e a realidade brasileira é mais inacreditável do que qualquer obra de ficção.

Vou esperar que nos próximos capítulos apareça alguém com um dragão cuspidor de fogo ou algo que o valha, mas não um dragão qualquer: o nosso dragão será cor-de-rosa, terá chifre de unicórnio e, como estamos no Brasil, torcerá para o Sport Club Atibaia, um time cujo escudo e uniforme são na improvável cor de... laranja.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

Crônica é o que sai

Um dos motivos pelos quais voltei a escrever crônicas é bem simples: queria recriar o hábito de escrever todos os dias sem qualquer outro compromisso. É preciso que se diga: trata-se de um hábito difícil de manter em condições normais, agora imagine no atual contexto de pandemia e isolamento social, quando optei por não fazer caminhadas reflexivas acerca de eventuais temas, e evitar os políticos. Sim, é verdade que o problema da caminhada seria fácil de resolver se eu simplesmente colocasse uma máscara no rosto e saísse por aí, mas aqui temos grupos de risco e considerei uma decisão sábia diminuir ao máximo as possibilidades de contágio, o que implica em não fazer saídas desnecessárias. Quanto ao problema dos temas políticos: sou um homem emocional quando se trata de política, por isso é melhor não.

De todo modo, eu sabia que haveria dias em que eu não teria assunto, portanto o assunto seria a própria crônica; e sabia que a velocidade e a freqüência com a qual se escreve e se publica crônicas requer, inevitavelmente, o que chamo de desapego criativo. Explico em fórmula sartreana: escrever é essencial, publicar é contingente.  Mas publico. Publico e portanto preciso estar desapegado do texto. A crônica ficou mais ou menos? Publico. Passou erro de revisão? Publico. Ficou mal desenvolvida? Publico. Teria algo mais a dizer sobre o assunto? Publico e talvez revisite o tema em crônica futura.

O apego restará guardado e cultivado principalmente para meus outros trabalhos (romances, novelas, contos). É uma estratégia, é claro, pois assim mato minha ânsia de publicar alguma coisa e, amaciado, dedico as energias remanescentes ao que me é mais caro.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Algumas paixões merecem a eternidade

Dizem que se um escritor se apaixonar por você, você jamais morrerá. Não estou seguro de que seja uma verdade absoluta, mas reconheço nessa frase alguma verdade. É que há paixões e paixões: algumas merecem a eternidade, outras não.

É igual a tudo na vida: há o que ficará contigo até o fim, e há o que se perderá. E até onde consegui entender a questão, quem sai de uma paixão já não é o mesmo que nela entrou, de modo que o tempo da obra, da eternização, também conta, inclusive em seus termos. Principalmente em seus termos.

Se eu, escritor, tivesse decidido te imortalizar quando me apaixonei por ti, tua imortalidade seria uma. Se decidisse te imortalizar hoje, outra. Como será a imortalidade que te darei amanhã?

Vale ressaltar, também, que muitas vezes multiplicamos, diluímos, dividimos tudo aquilo que nos serve de... Inspiração? Não gosto desse termo. Percebemos bem o que nos encobre e abriga, observamos tudo o que interage conosco e com que interagimos, e é verdade: damos atenção especial ao que queima, arde, inflama; ao que de algum modo nos fere, seja com carícias ou sevícias — E antes que me corrijam: carícias também ferem, muitas vezes mais do que qualquer ofensa.

E na hora de sentar finalmente, reviramos toda a lama que cresceu em nós à procura de algo sobre o qual tenhamos o que dizer. Às vezes é uma paixão, mas de vez em quando acontece de ser uma pedra. Matéria prima é, portanto, um termo mais justo que inspiração. É que tira, pelo menos um pouco, o caráter místico da arte literária (e não se engane: há sim algo de místico em qualquer trabalho criativo, o problema é reputar a isso uma conditio sine qua non), deixando mais espaço tanto para o que é emocional quanto para o que é racional.

Mas estou tergiversando. Voltemos à paixão. O que fazer com aquela que se extinguiu em cinzas? A que não passou de um erro de juízo, da qual nada se pode aproveitar, nem mesmo uma pedra? Creio que é difícil aceitar que isso seja possível, afinal de contas, tudo o que vivemos de algum modo nos compõe, e até mesmo o que ignoramos em nós estará presente enquanto também estivermos. Por que não estaria em nossas letras? Tudo bem. É um ótimo argumento com o qual concordo: de algum modo tudo vai ficando, não tem escapatória. Mas esse texto não é sobre isso: é sobre a vontade consciente de trabalhar a questão literariamente, e sobre o que, deste modo, merece aspirar, junto com a obra, o limitado panteão do que habita a eternidade.