sexta-feira, 22 de setembro de 2017

Diários de Cinema #1 - Sonhos de Mulheres (1955)

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Trata-se de uma dramédia bergmaniana de 1955. Apesar do foco narrativo, com dois núcleos, estar direcionado às duas personagens principais, a fotógrafa de moda Susanne Frank e a modelo Doris, o que mais me chamou a atenção foi o personagem Otto, um cônsul milionário, já com certa idade, vivendo à sombra de suas tragédias familiares: uma esposa que enlouqueceu ao dar à luz uma filha na qual alega ver a cabeça de um lobo, e essa mesma filha que, crescida, o odeia e parece interessada apenas em seu dinheiro.

É ao encontrar a vulnerável modelo Doris, após recente fim de relacionamento com o namorado, que Otto parece intuir alguma forma de redenção, pois encontra nela uma mulher que fisicamente lembra sua esposa, e cuja idade é a de sua filha. Assim, Otto lhe compra vestido, luvas, joias, e dispõe-se, a convite da jovem modelo, mesmo a contragosto, a andar em brinquedos de um parque de diversões que normalmente evitaria: montanha-russa, algo que “gira prum lado, gira pro outro, te joga pra cima, depois pra baixo”, trem-fantasma.

Otto tenta coroar a jovem Doris com um bracelete de valor inestimável pertencente às joias da família, com brindes de champanha e dança, mas seus planos, talvez inconscientes (isto não fica claro), são frustrados com a visita inesperada (por Otto, não pelos espectadores) da filha.

O que Bergman deixa bastante evidente é que no primeiro contato de Otto com Dóris, ele tentou, através dela, alcançar a redenção da paternidade frustrada (Otto foi um pai ausente, um homem que, segundo sua filha, “era avaro, só pensava em dinheiro”), aceitando ir com ela a lugares que provavelmente nunca fora com a filha, gastando com ela o que provavelmente nunca gastara com a filha.

Ao chegarem em sua enorme residência, por outro lado, Otto parece querer redimir o marido: e Doris torna-se, então, alvo de sedução, objeto de desejo.

A chegada de sua filha parece, contudo, conscientizá-lo da impossibilidade de redenção, e Otto, que num primeiro momento parece ficar contra ela, acaba por tomar-lhe partido quando esta não só ordena à humilhada Doris que dispa-se da joia de família, como também lhe agride com dois bofetões.

O outro núcleo narrativo versa sobre Susanne, a fotógrafa, amante de Henrik, um homem casado à beira da falência, pelo qual se humilha, aceitando ora seu desprezo, ora suas migalhas de afeto.

Após muita insistência para reencontrar o amante, ambos se reconciliam e Susanne aceita seu convite para uma viagem a Oslo, “só nós dois, dia e noite, juntos”, mas os planos são interrompidos pela chegada da esposa, uma mulher que, em uma única cena, mostra-se a mais forte de todas as personagens do filme.

De todo modo, os núcleos principais convergem para uma solução banal: duas mulheres que encontram, uma nos braços da outra, outra nos braços do trabalho, o conforto ou sublimação para as frustrações de um dia, ou de uma vida inteira.

“A vida não é maravilhosa?”, pergunta à Susanne um dos personagens, já nos últimos segundos do filme.

“Sim”, ela responde, mas parece pensar o contrário enquanto a tela escurece.

Apesar de ser um filme atípico se comparado aos mais conhecidos de Bergman, os elementos que o tornariam famoso já se encontram presentes. Vale a pena assisti-lo.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Ritual do Cemitério

Durante a adolescência e início da vida adulta, mantive com alguns amigos um ritual que hoje me parece mórbido e despropositado, mas que à época era conditio sine qua non de nosso Dia de Finados: a cada 2 de novembro, íamos ao cemitério de nosso bairro visitar túmulos aleatórios, fossem de defuntos desconhecidos, fossem de defuntos famosos (em Tibiri, defunto famoso é o de alguém que morreu de morte violenta). Era sempre assim: 2 de novembro e lá íamos nós, aos três, aos quatro, aos cinco.

No auge de nosso ritual anual, que por algum motivo se espalhou por nosso grupo de amigos, éramos incontáveis moleques de sandálias havaianas e pés sujos, caminhando entre um túmulo e outro, criticando arquiteturas, epitáfios, fotogenia defunta.

O cemitério municipal de Tibiri em 2 de novembro tornava-se, assim, o ponto de encontro de jovens entediados. Aliás, essa é uma das coisas interessantes de ser jovem em um bairro pequeno: qualquer coisa que te sequestre da rotina diária é motivo de entrega. Em outros níveis, talvez seja assim em qualquer lugar do mundo. Quanto aos adultos, somos gratos pela rotina nossa de cada dia. E envelhecer talvez seja isso (ainda sou jovem o suficiente para ter mais dúvidas que certezas, daí o talvez): aprender a cultivar e ser grato pela rotina, pois rotina é segurança; a rotina é, a seu modo bizarro, liberdade e sossego.

Mas falava do Ritual do Cemitério. Certa vez, numa de nossas incursões, uma garota de nosso grupo, sentindo pena de um túmulo para o qual até então ninguém acendera vela ou levara flores, foi lá no fiteiro da frente, voltou com uma caixa de velas Santa Clara e uma flor que furtou de um defunto famoso. Acendeu quantas pôde, deitou-lhe a flor sobre o mármore, e esfregou as mãos, satisfeita: “Agora o José não vai mais ficar triste porque ninguém lembrou dele”. José era um defunto antigo, com direito a foto oval em tons de sépia, e bigode à moda de 30. Talvez já nem tivesse parentes vivos, vai saber. De todo modo, atesto que as velas queimaram a noite inteira. José, seja lá onde estiver, deve ter ficado feliz.

Um dos nossos mais assíduos ritualistas chamava-se Bibo, e sua devoção anual era tamanha que normalmente passava em minha casa na véspera para assegurar minha presença. “Não esqueça, amanhã é dia do ritual”. Bibo era um grande crítico de fotogenia e arquitetura defunta, mas tinha um olhar clínico para qualquer coisa que lhe soasse um pouco fora do comum. Bastava uma olhadela para o túmulo e sentenciava: “Aqui morreu um ourives. Ali morreu um atleta. Já este outro túmulo sugere que o defunto morreu de crime passional”.

Nunca soubemos se ele acertava ou não, mas não importava. Todos nós imaginávamos incríveis histórias de vida, amor e morte, e isso nos bastava. Também ríamos bastante, tanto que saíamos do cemitério ofegantes e com as bochechas doloridas, mas nunca consegui entender bem o porquê. Talvez porque assim nos distanciássemos de tanta dor e morbidez, talvez simplesmente porque éramos jovens e ríamos de tudo.

O caso é que no último ritual em que estivemos em grande número, um fotógrafo nos vendo assim tão jovens, tão juntos e tão vulneráveis, aproximou-se e nos propôs tirar uma foto do grupo. Disse que naquele momento só teríamos que pagar a metade, que a outra metade receberia quando nos entregasse a foto. Que era irmão da diretora de nossa escola, que poderíamos pegar a foto na casa dela dentro de duas semanas. Ainda lembro seu nome: Danda. E assim foi, fizemos uma vaquinha e Danda nos reuniu, cruzes, túmulos e velas ao fundo, e tirou duas fotos cujo flash nos deixou temporariamente zonzos.

A foto era assim: um grupo de jovens, garotos e garotas, sorridentes, abraçados como se fossem um, e como se o presente fosse eterno. Alguns punham chifres nos outros, outros faziam o V da vitória com os dedos médio e indicador, e os demais simplesmente sorriam.

Duas semanas depois, fui com Bibo à casa da diretora e ela, ao ouvir nossa história, levou a mão ao peito num princípio de infarto e quase gritou: “Danda? Mas faz mais de trinta anos que eu não vejo Danda!”

E isso foi suficiente para criar inúmeras teorias. Imaginem. A primeira, como não podia deixar de ser, foi a de que Danda era um fantasma, que levou nossa fotografia para o mundo dos mortos, quiçá para ornamentar a sala de estar de sabe-se lá que espírito. Os mais histéricos propuseram que nossa morte era apenas uma questão de dias, e os mais materialistas dizíamos, com desdém: “Que nada, era só um golpista. Golpista!”

Com aquela foto que jamais veríamos senão em nossas lembranças, parece que encerramos o ciclo-ritual, e jamais voltamos a nos reunir daquela forma. E Danda, o Golpista, esteja lá onde estiver hoje em dia, foi o toque de poesia sem o qual qualquer fim é um fim banal.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como se eu já não fosse patriota o bastante

Se eu fosse um crônista sério, cronicaria sobre o causo da exposição Queer, fechada pelo Santander após pressões dos representantes da família tradicional brasileira. Como não sou, cronicarei sobre o patriotismo cego e injustificável que contamina parte da população tupiniquim.

A culpa, como quase tudo neste país atualmente, é da polarização. Falemos sobre ela partindo de um exemplo bem simples, imaginado com carinho para clarear as ideias do leitor não-politizado: no alfabeto, existe uma imensa família vocálica e consonantal, mas é como se o debate público brasileiro só conseguisse ver o A e o Z, ignorando sumariamente todo o BCDETC que existe entre eles. Assim, nosso debate é binário, maniqueísta, ao estilo do ou isto ou aquilo, como se não existissem outras opções.

Logo, ou você é de direita ou de esquerda; ou é tucano ou petralha; coxinha ou mortadela; bem-te-vi ou urubu. Esquecem, por exemplo, do centro (onde eu, coitado, humildemente me ponho) e ignoram ou confundem as extremidades (o participante ativo das redes sociais há de lembrar o pinguepongue retórico do mês passado: nenhum dos lados estava disposto a carregar a cruz suástica nas costas).

Mas o objetivo aqui é falar sobre o tal do patriotismo cego e injustificável. Ele surgiu por causa da polarização, eu dizia, e é o equivalente político da mãe para quem o filho está além do bem e do mal, e ai de quem lhe fizer alguma crítica. Foi o caso de dois amigos essa semana: um deles, voltando para o Rio após passar um ano na Itália, recebeu como boas vindas uma gravata quase fatal, além da subtração de seus pertences. Indignado e já a salvo na residência de seus familiares, publicou sua frustração na Internet, enfatizando que adiaria sua volta à Itália, que desta vez seria definitiva. Não faltou quem lhe reprovasse o ato, acusando-o de elitismo antipatriótico e até de falta de humanidade, afinal a realidade por ele experimentada era rotina aqui ali.

Como se um absurdo não fosse absurdo em todo lugar.

O outro amigo mora em Berlim com sua esposa, creio que há mais de um ano, e postou alguma notícia internacional acerca dos índices absurdos de violência tupiniquim ao lado de uma legenda que perguntava, entre aspas, “Por que você deixou o Brasil?” Também neste caso não restou quem lhe criticasse, mesmo com leve, quase imperceptível, ironia.

Em ambas as publicações, subscrevi meu apoio: sim, também eu, se pudesse, faria o mesmo. Agora. Sem pestanejar.

Mais tarde, afinal ninguém está a salvo da polícia da internet, fui questionado sobre isso nos seguintes termos: “Você odeia o Brasil, não é? Deveria deixá-lo mesmo.” (Impossível não sentir naquela provocação o eco daqueles slogans ufanistas dos anos de chumbo). De todo modo, tive que me explicar: “Que absurdo, meu querido, eu amo o Brasil. Seu povo, sua história. Acho que vivemos em um país privilegiado pela natureza e recheado com um povo maravilhoso. E é por amá-lo que não quero vê-lo assim, impotente à sua própria destruição nas mãos dos cânceres-de-paletó que no momento comandam a nação, estes sim com elitismo antipatriótico, umbiguismo sem fim, e galáctica cara de pau.”

“Se tivesse esperanças, ficaria. Como não as tenho, prefiro partir. Se fico é por força das circunstâncias, e não por falta de vontade.”

Ainda não recebi nenhuma resposta.

sábado, 9 de setembro de 2017

Falta assunto, crônica é que não

Chego pro Tiago Germano, cronista raiz, autor do recém-publicado Demônios Domésticos. Pergunto:

“Hey, Jude, tellma: o que faz um cronista quando está sem assunto?”

Ele não titubeia:

“Escreve uma crônica sobre isso.”

Okay, este sou eu escrevendo uma crônica sobre a falta de assunto para escrever uma crônica.

Eu havia dito, nas divulgações que fiz via redes sociais, que não tinha por hábito ler e escrever crônicas, e que a ideia de publicar uma por semana nada mais era do que uma tentativa de aprender na prática, como um cowboy (ninguém aprende na teoria como ser um cowboy, me certificou o Dave Rudabaugh na última vez em que o encontrei). Isso é verdade: não tenho o hábito e, pra corrigir essa lacuna, até comprei algumas coletâneas. Afinal, dizem que a ideia da coletânea é juntar o que já se fez de melhor, não é mesmo não é mesmo não é mesmo?¹ Nem sei se isso é verdade. De todo modo, leio pelo menos uma crônica por dia (há quem as escreva em igual ritmo!), e estou cada vez mais admirado com a beleza, fluidez, contorcionismos retóricos e temáticos que nossos cronistas fazem para manter o nível e a frequência.

Percebi, talvez cedo, talvez tarde, que ser cronista de certa forma é manter um compromisso perene com o tempo (vou me privar de invocar aquele deus onipresente em todo artigo sobre o tema), com tudo que cerca o cronista, que qualquer coisa pode virar assunto e que, como tudo na vida, o sabor do prato depende mais das mãos de quem cozinha do que do prato em si. O meu risotto usa os mesmos ingredientes que o risotto da minha sogra e é, portanto, um risotto. Mas eu não o comeria se fosse você.

O caminho inevitável, para mim, é o já traçado por quem admiro. Um dia talvez chegue lá – “onde outros já estiveram”, acrescenta com desdém o diferentão -, de repente até fico bom, afinal teimosia nunca me faltou.

E é preciso teimosia para escrever, é preciso teimosia para insistir numa atividade que requer prática constante e cujos esforços nem sempre são recompensados em proporção equivalente, quando são.

Daí que a terceira semana desde que comecei com isso enfim termina, e uma vez ou outra me peguei pensando em coisas como “opa, isto aqui daria uma ótima crônica”, “opa, isto aqui é um ótimo assunto sobre o qual escrever numa crônica”. Aliás, uma vez ou outra uma ova: o tempo inteiro. Infelizmente, não tenho o hábito dos blocos de notas (invejo quem tem) e agora, ao sentar para escrevê-la, isto mesmo, o branco aconteceu. Tive que apelar.

¹ Trata-se de uma dupla referência ao livro Breves entrevistas com homens hediondos, do David Foster Wallace, autor norteamericano que virou modinha depois de sua morte trágica e que era conhecido, dentre outras coisas, por gostar de usar notas de rodapé sem as quais o livro perde boa parte da graça que já nem é tão infinita assim.

sábado, 2 de setembro de 2017

Um dos motivos

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Outro dia um garoto de alguma coisa entre 10 e 12 anos chegou na livraria com seus pais e me perguntou, a voz trêmula, pelo livro X do autor Z. Por acaso teríamos?

Como conhecia o autor, pulei todo o suspense de olhar no buscador do sistema e me virei para onde se aglomeravam os livros de literatura fantástica. Dali mesmo vislumbrei o calhamaço e disse-lhe sim, temos, só um minuto.

Fui até a prateleira e retirei o livro, era o único exemplar, e entreguei ao garoto, que o segurou com a mesma reverência com que seguraria algum artefato mágico e sagrado.

O que aquele livro certamente era para ele.

Sei disso não só pela forma como ele o segurou, mas também pela gratidão com que me olhou, pelo tom de voz com que disse “Caramba! Obrigado!”, e com a rapidez com que praticamente correu em direção ao caixa sem sequer perguntar o preço. Os pais, é claro, agradeceram e o acompanharam satisfeitos: pagariam quanto fosse pelo calhamaço com o maior prazer do mundo. Vi isso em seus olhos.

Uma cena banal, há quem observe, até mesmo corriqueira em se tratando da rotina livreira, mas mesmo assim me comoveu, e é deles que lembro mais. Talvez fosse a idade do garoto, talvez sua magreza ou seu tom de pele, até mesmo o gosto pelo fantástico. Ou então seus pais, que me lembravam tanto os meus próprios, com toda aquela juventude e simplicidade.

Consegui ver, num lapso, o garoto chegando em casa, correndo para o seu local de leitura favorito, esticando-se confortavelmente e começando a ler seu novo livro. Era assim que eu fazia na época em que tinha sua mesma idade, com livros ou gibis, patrocinado por meus amados pais. Era seguro me refugiar naquelas páginas, longe da violência ridícula que começava a tomar forma em meu bairro e que levou tantos amigos e conhecidos.

E esse é um dos motivos pelos quais acredito na leitura: ela me salvou, já salvou outros. E é por isso que sou cuidadoso na hora de fazer uma recomendação a alguém que “quer tomar gosto pela leitura”. Sei que uma experiência prazerosa irá torná-la leitora pelo resto da vida, e uma experiência traumática atuará quiçá na mesma proporção, mas no sentido perigosamente oposto.