quinta-feira, 27 de abril de 2017

Compromisso com quem mesmo?

Cena de Meia-noite em Paris, do Woody Allen:

(Gil Pember, um aspirante a escritor um tanto inseguro e saudosista, conversa com Hemingway, o mito):

Gil: Ouça, queria pedir-lhe o maior favor do mundo.

Hemingway: Qual?

Gil: Poderia lê-la?

Hemingway: Sua novela?

Gil: Sim, tenho 400 páginas e estou querendo... quero sua opinião.

Hemingway: Minha opinião é que a odeio.

Gil: Mas você nem a leu!

Hemingway: Se for má, a odeio. Odeio a má literatura. Se for boa, a invejo e a odeio. Não peça a opinião de outro escritor!

Acabo de finalizar a leitura do mais novo livro do Haruki Murakami publicado no Brasil — Romancista como vocação (Companhia das Letras) —, e apesar dele não figurar nem de longe entre meus autores favoritos, fez com que eu me desse conta do que esteve acontecendo comigo todos esses anos:

Durante muito tempo cultivei a impressão de que meu compromisso, ao escrever, era para com a comunidade literária a qual considerava fazer parte, e não para comigo mesmo ou para com a Literatura propriamente dita — ou mesmo para com os meus leitores. Essa impressão resultava em algo bastante desagradável: a necessidade de escrever algo que estivesse em conformidade com as expectativas dessa mesma comunidade e não com as minhas próprias.

Murakami me fez pensar em minhas origens, questionar os motivos que me impelem à escrita desde que me entendo por gente, e as respostas que obtive foram reveladoras, apesar de no fundo não constituírem surpresa: quando comecei a escrever, meu único objetivo era a atividade em si mesma. Quero dizer, sempre adorei histórias e desde cedo crio as mais diversas em minha cabeça. Naturalmente, chegou um momento em que isso não bastava, e eu passei a querer pô-las no papel, ver que formas adquiririam quando as tentasse transformar em arte. Contudo, não pensava em ser lido, e talvez a princípio sequer o quisesse, visto que não fazia a menor questão de mostrar meus contos a ninguém. Dois ou três amigos próximos leram meus primeiros textos — não lembro se a iniciativa partiu de mim ou deles — e pareceram ter gostado, pois daí em diante passaram a pedir para ler tudo que eu escrevia. Mais tarde, um outro amigo pegou um dos meus textos emprestados e o fez circular na escola onde estudava. Era um conto de horror e fez tanto sucesso que passei alguns meses conhecido como “o cara que escreveu aquele conto”. Aos poucos, fui fazendo amizade com outros escritores e me tornei conhecido entre alguns do bairro, da cidade, do estado, e até da região (naturalmente isso foi anos depois, quando surgiram blogs, fóruns na internet e esse tipo de coisa).

Com o tempo fui ganhando confiança suficiente para enviar material para revistas e, mesmo na maioria das vezes não recebendo sequer um “não” educado, cheguei a receber emails encorajadores (num deles, o editor de um site especializado em novos escritores que, diga-se, nem existe mais, me encorajava a continuar, dizia que eu viria a me tornar um grande escritor algum dia. Gostei tanto do email que o imprimi e ainda o tenho guardado junto com cartas de amigos e ex-namoradas em alguma caixa de sapatos lá na casa dos meus pais).

De todo modo, é aqui que devo explicitar um detalhe: na fase 2, quando me envolvi com a tal comunidade literária, ao escrever me preocupava com eles como me preocuparia com um editor exigente, por exemplo. Como nós éramos os únicos leitores uns dos outros — leitores que também eram escritores, vejam bem! —, e escritores tendem a ser um tanto implacáveis quando se trata de criticar um colega (devo dizer que eu não era exceção, mas culpo minha imaturidade na época antes de ego ou qualquer outra coisa), a possibilidade de me defrontar com alguns “tá-um-lixo”, pois muitas das críticas se resumiam a isso, fazia com que eu realmente me preocupasse com eles no momento da escrita.

Sim, um erro absurdo e do qual não me dei conta na época, o qual acabou se internalizando, tornando-se parte do meu processo de escrita. Mais tarde, quando publiquei de forma independente A Orquestra dos Corações Solitários e comecei a receber emails elogiosos de leitores desconhecidos, por mais que gostasse desses elogios e por mais que eles me servissem de bálsamo e estímulo para continuar escrevendo, a possibilidade de receber, a qualquer momento, um “tá-um-lixo” de algum colega ainda me rendia uma intensa insegurança.

Por incrível que pareça, só agora me dei conta disso e, devo admitir, graças ao livro do Murakami. Concluí que talvez seja esse o motivo pelo qual não consigo finalizar meu romance ou porquê publico tão pouco. Não estou querendo apontar um culpado na intenção de me eximir — no final das contas, o único culpado de qualquer coisa no que diz respeito à minha escrita sou eu mesmo, para o bem ou para o mal —, apenas encontrei uma explicação que faz bastante sentido para mim, e uma vez que encontrei o problema, com ele veio a solução.

Para Murakami, o que tem funcionado durante todos esses anos é que ele escreve, sempre escreveu, para si —— o que comigo também funcionava perfeitamente na época em que também escrevia apenas para mim ou para amigos que eram apenas leitores sem nenhuma pretensão literária. É libertador tomar consciência disso, deve ser uma sensação parecida com a que sente alguém que acabou de sair de uma sessão de análise verdadeiramente proveitosa.

Voltarei a me preocupar apenas com quem realmente importa.