sexta-feira, 21 de abril de 2017

Das Manhãs

“Manhãs são para café e contemplação.”

(Chief Hopper)

Costumo acordar de mau humor. Não sei por que isso acontece, apesar de desconfiar do sono interrompido. Normalmente, vou melhorando conforme as horas passam: após 20 minutos de meditação, um banho quente, um desjejum leve e um café — tudo isso de preferência em silêncio ou ouvindo jazz —, meu humor costuma voltar ao normal. Não gosto de conversas matutinas, tampouco de barulhos em geral (moro em condomínio e aos sábados acordo cercado por uma orquestra infernal de furadeiras, martelos e música de péssima qualidade), e tenho sido assim desde que consigo me lembrar.

Se pudesse escolher, dormiria num bunker e só me disporia ao contato social de qualquer espécie após o meio dia, algo parecido com o que Salinger fazia — Aliás, devo dizer que se há um escritor com o qual me identifico em alguns aspectos pessoais, esse escritor é Salinger.

De todo modo, quase ninguém com quem já convivi compreende isso, e por não compreenderem não respeitam: algumas pessoas costumam acordar sorridentes, saudando o sol, falando pelos cotovelos, fazendo a noviça rebelde, e acham que há algum problema terrível te pondo sombrio apenas porque você quer ficar na sua até encontrar alguma disposição para o convívio.

É verdade que eu poderia iniciar alguma prática de PNL tentando reprogramar isso, mas sinceramente, sinceramente MESMO: não quero. Gosto de ser assim, acho até que é por isso que escrevo melhor pelas manhãs, quando estou mais introspectivo, ensimesmado. O maior problema ainda, como sugeri no parágrafo anterior, é fazer com que as pessoas com quem convivo compreendam e respeitem isso. Confesso que não é nada fácil.