quarta-feira, 14 de junho de 2017

Uma rotina para o escritor

Chalkboard-Writers-Block

Chega. Falo sério: estou cansado, chega.

Faz meses, talvez um pouco mais de um ano que não consigo escrever efetivamente. Não consigo me concentrar, as poucas palavras que caem a conta-gotas em meu processador de textos parecem vazias de significado e, pior, sentido. Centenas e mais centenas de palavras são deletadas pura e simplesmente, após qualquer releitura, e o romance que comecei há mais de dois anos continua tal e qual estava poucos meses depois que o comecei. Contos, nesse meio tempo escrevi e até publiquei alguns, todos verdadeiras porcarias que sequer tenho coragem de reler. Uma pena, mas desde que isso começou as coisas só pioraram. No princípio imaginei que passaria sozinho, que era só uma fase e eu não deveria me preocupar pra valer com isso, que cedo ou tarde a inspiração ou seus equivalentes voltariam a me fazer companhia. Ingenuidade. Hoje me dei conta de que se eu não fizer alguma coisa, nada acontecerá.

Estou me recuperando de uma pneumonia. Estou de atestado médico, em casa, e mais cedo conversei com a Raquel sobre isso, após tentar inutilmente por algumas horas rabiscar uma noveleta sobre um garoto de 12 anos e seu irmão mais velho. Não pude escapar da metáfora da fonte: “antigamente, se bem me lembro”, falei, parafraseando Rimbaud, que sempre me vem à mente nessas horas (talvez por um medo de mergulhar em minha própria saison en enfer), “a minha imaginação era uma fonte inesgotável, uma catarata por onde jorravam torrentes que mesmo que eu me esforçasse em tempo integral jamais conseguiria conter. Bastava enfiar um balde lá e ele voltaria cheio até a borda, esborrando. Hoje, sinto-me como alguém que tenta extrair as últimas gotas de uma fonte vazia com uma canequinha de alumínio e comemora cada plinc como mais uma vitória.”

Não sei se me faço compreender, mas é grave. Quando estou sem escrever, fico angustiado, como se tivesse perdido minha função no mundo, me transformo numa folha seca sendo levada por um córrego após uma tarde chuvosa em direção ao bueiro onde será sepultada e esquecida para sempre.

Então comecei a pensar no que posso fazer para mudar isso e a primeira coisa que me ocorreu foi que preciso forçar uma rotina de escrita diária, com metas e prazos e esse tipo de coisa. Cheguei a cogitar comprar uma máquina de escrever, o que me livraria da tentação das redes sociais, mas optei por, mais uma vez, excluir as contas e desinstalar os aplicativos. O que fazer a seguir? As opções são várias, mas determinar horário/prazo e iniciar um projeto simples do zero é a mais tentadora no momento. Não sei se farei isso, talvez retome o romance, que passa por um momento complicado, o que de certa forma também serve a justificar sua lentidão, talvez simplesmente volte a escrever os contos que me derem na telha. Minha única missão agora é escrever, só isso, transformar a escrita num hábito diário tão vital quanto o cigarro é para alguns, e o álcool para outros.

Começo por esse texto porque precisava fazer isso o mais rápido possível, cavar a fonte, e se ainda estou comemorando cada plinc é porque tenho esperança de que em breve essa fonte volte a jorrar como antes. Me desejem sucesso.