quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Palhaços

wellington e sinal 3

Ao vermelho do sinal, pelo menos cinco palhaços pularam na frente de nosso carro. Traziam pequenas bolas consigo, que utilizavam como malabares, atirando-as ao ar, às vezes por entre as pernas, cruzando os braços, sem nunca deixá-las cair, numa exibição de destreza circense. A maquiagem precária derretia sobre suas faces negras, suadas, fazendo com que o branco do sorriso palhaçal se tornasse o branco de uma tristeza abissal, seu real estado de espírito, a julgar pelos olhares resignados.

Após o miniespetáculo, passaram uma pequena caixa de papelão, aceitando o que quer que lhe enfiassem dentro. Uma parte dos espectadores naturalmente enfiava moedas, trocos de compras e pedágios, porventura ao alcance da mão. A maioria, entretanto, continuava a ignorá-los, xingando-os ou aconselhando-os em silêncio: “Vagabundos!”, “Vão trabalhar!”, “Vão estudar!”

O teor dos conselhos muda conforme a experiência e as convicções de quem aconselha. Às vezes a experiência é a mãe da convicção e avó do conselho, noutras é a convicção quem pare a experiência, e esta por fim o conselho. Uma coisa, contudo, nunca muda: é essa ânsia de ser norte no horizonte dos perdidos, como se não estivéssemos todos no mesmo labirinto, cada um perdido a seu modo. E como se não fôssemos, também, palhaços a equilibrar os malabares nossos de cada dia. Malabares que equilibramos seja num vão trabalhar, seja num vão estudar.

Nesse circo de palhaços resignados, somos todos malabaristas, e nossa maquiagem, assim como a dos garotos do sinal, também estão a derreter, e também expõem, lentamente, a tristeza de nosso próprio espírito.