quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Como se eu já não fosse patriota o bastante

Se eu fosse um crônista sério, cronicaria sobre o causo da exposição Queer, fechada pelo Santander após pressões dos representantes da família tradicional brasileira. Como não sou, cronicarei sobre o patriotismo cego e injustificável que contamina parte da população tupiniquim.

A culpa, como quase tudo neste país atualmente, é da polarização. Falemos sobre ela partindo de um exemplo bem simples, imaginado com carinho para clarear as ideias do leitor não-politizado: no alfabeto, existe uma imensa família vocálica e consonantal, mas é como se o debate público brasileiro só conseguisse ver o A e o Z, ignorando sumariamente todo o BCDETC que existe entre eles. Assim, nosso debate é binário, maniqueísta, ao estilo do ou isto ou aquilo, como se não existissem outras opções.

Logo, ou você é de direita ou de esquerda; ou é tucano ou petralha; coxinha ou mortadela; bem-te-vi ou urubu. Esquecem, por exemplo, do centro (onde eu, coitado, humildemente me ponho) e ignoram ou confundem as extremidades (o participante ativo das redes sociais há de lembrar o pinguepongue retórico do mês passado: nenhum dos lados estava disposto a carregar a cruz suástica nas costas).

Mas o objetivo aqui é falar sobre o tal do patriotismo cego e injustificável. Ele surgiu por causa da polarização, eu dizia, e é o equivalente político da mãe para quem o filho está além do bem e do mal, e ai de quem lhe fizer alguma crítica. Foi o caso de dois amigos essa semana: um deles, voltando para o Rio após passar um ano na Itália, recebeu como boas vindas uma gravata quase fatal, além da subtração de seus pertences. Indignado e já a salvo na residência de seus familiares, publicou sua frustração na Internet, enfatizando que adiaria sua volta à Itália, que desta vez seria definitiva. Não faltou quem lhe reprovasse o ato, acusando-o de elitismo antipatriótico e até de falta de humanidade, afinal a realidade por ele experimentada era rotina aqui ali.

Como se um absurdo não fosse absurdo em todo lugar.

O outro amigo mora em Berlim com sua esposa, creio que há mais de um ano, e postou alguma notícia internacional acerca dos índices absurdos de violência tupiniquim ao lado de uma legenda que perguntava, entre aspas, “Por que você deixou o Brasil?” Também neste caso não restou quem lhe criticasse, mesmo com leve, quase imperceptível, ironia.

Em ambas as publicações, subscrevi meu apoio: sim, também eu, se pudesse, faria o mesmo. Agora. Sem pestanejar.

Mais tarde, afinal ninguém está a salvo da polícia da internet, fui questionado sobre isso nos seguintes termos: “Você odeia o Brasil, não é? Deveria deixá-lo mesmo.” (Impossível não sentir naquela provocação o eco daqueles slogans ufanistas dos anos de chumbo). De todo modo, tive que me explicar: “Que absurdo, meu querido, eu amo o Brasil. Seu povo, sua história. Acho que vivemos em um país privilegiado pela natureza e recheado com um povo maravilhoso. E é por amá-lo que não quero vê-lo assim, impotente à sua própria destruição nas mãos dos cânceres-de-paletó que no momento comandam a nação, estes sim com elitismo antipatriótico, umbiguismo sem fim, e galáctica cara de pau.”

“Se tivesse esperanças, ficaria. Como não as tenho, prefiro partir. Se fico é por força das circunstâncias, e não por falta de vontade.”

Ainda não recebi nenhuma resposta.