sábado, 9 de setembro de 2017

Falta assunto, crônica é que não

Chego pro Tiago Germano, cronista raiz, autor do recém-publicado Demônios Domésticos. Pergunto:

“Hey, Jude, tellma: o que faz um cronista quando está sem assunto?”

Ele não titubeia:

“Escreve uma crônica sobre isso.”

Okay, este sou eu escrevendo uma crônica sobre a falta de assunto para escrever uma crônica.

Eu havia dito, nas divulgações que fiz via redes sociais, que não tinha por hábito ler e escrever crônicas, e que a ideia de publicar uma por semana nada mais era do que uma tentativa de aprender na prática, como um cowboy (ninguém aprende na teoria como ser um cowboy, me certificou o Dave Rudabaugh na última vez em que o encontrei). Isso é verdade: não tenho o hábito e, pra corrigir essa lacuna, até comprei algumas coletâneas. Afinal, dizem que a ideia da coletânea é juntar o que já se fez de melhor, não é mesmo não é mesmo não é mesmo?¹ Nem sei se isso é verdade. De todo modo, leio pelo menos uma crônica por dia (há quem as escreva em igual ritmo!), e estou cada vez mais admirado com a beleza, fluidez, contorcionismos retóricos e temáticos que nossos cronistas fazem para manter o nível e a frequência.

Percebi, talvez cedo, talvez tarde, que ser cronista de certa forma é manter um compromisso perene com o tempo (vou me privar de invocar aquele deus onipresente em todo artigo sobre o tema), com tudo que cerca o cronista, que qualquer coisa pode virar assunto e que, como tudo na vida, o sabor do prato depende mais das mãos de quem cozinha do que do prato em si. O meu risotto usa os mesmos ingredientes que o risotto da minha sogra e é, portanto, um risotto. Mas eu não o comeria se fosse você.

O caminho inevitável, para mim, é o já traçado por quem admiro. Um dia talvez chegue lá – “onde outros já estiveram”, acrescenta com desdém o diferentão -, de repente até fico bom, afinal teimosia nunca me faltou.

E é preciso teimosia para escrever, é preciso teimosia para insistir numa atividade que requer prática constante e cujos esforços nem sempre são recompensados em proporção equivalente, quando são.

Daí que a terceira semana desde que comecei com isso enfim termina, e uma vez ou outra me peguei pensando em coisas como “opa, isto aqui daria uma ótima crônica”, “opa, isto aqui é um ótimo assunto sobre o qual escrever numa crônica”. Aliás, uma vez ou outra uma ova: o tempo inteiro. Infelizmente, não tenho o hábito dos blocos de notas (invejo quem tem) e agora, ao sentar para escrevê-la, isto mesmo, o branco aconteceu. Tive que apelar.

¹ Trata-se de uma dupla referência ao livro Breves entrevistas com homens hediondos, do David Foster Wallace, autor norteamericano que virou modinha depois de sua morte trágica e que era conhecido, dentre outras coisas, por gostar de usar notas de rodapé sem as quais o livro perde boa parte da graça que já nem é tão infinita assim.