quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O Ritual do Cemitério

Durante a adolescência e início da vida adulta, mantive com alguns amigos um ritual que hoje me parece mórbido e despropositado, mas que à época era conditio sine qua non de nosso Dia de Finados: a cada 2 de novembro, íamos ao cemitério de nosso bairro visitar túmulos aleatórios, fossem de defuntos desconhecidos, fossem de defuntos famosos (em Tibiri, defunto famoso é o de alguém que morreu de morte violenta). Era sempre assim: 2 de novembro e lá íamos nós, aos três, aos quatro, aos cinco.

No auge de nosso ritual anual, que por algum motivo se espalhou por nosso grupo de amigos, éramos incontáveis moleques de sandálias havaianas e pés sujos, caminhando entre um túmulo e outro, criticando arquiteturas, epitáfios, fotogenia defunta.

O cemitério municipal de Tibiri em 2 de novembro tornava-se, assim, o ponto de encontro de jovens entediados. Aliás, essa é uma das coisas interessantes de ser jovem em um bairro pequeno: qualquer coisa que te sequestre da rotina diária é motivo de entrega. Em outros níveis, talvez seja assim em qualquer lugar do mundo. Quanto aos adultos, somos gratos pela rotina nossa de cada dia. E envelhecer talvez seja isso (ainda sou jovem o suficiente para ter mais dúvidas que certezas, daí o talvez): aprender a cultivar e ser grato pela rotina, pois rotina é segurança; a rotina é, a seu modo bizarro, liberdade e sossego.

Mas falava do Ritual do Cemitério. Certa vez, numa de nossas incursões, uma garota de nosso grupo, sentindo pena de um túmulo para o qual até então ninguém acendera vela ou levara flores, foi lá no fiteiro da frente, voltou com uma caixa de velas Santa Clara e uma flor que furtou de um defunto famoso. Acendeu quantas pôde, deitou-lhe a flor sobre o mármore, e esfregou as mãos, satisfeita: “Agora o José não vai mais ficar triste porque ninguém lembrou dele”. José era um defunto antigo, com direito a foto oval em tons de sépia, e bigode à moda de 30. Talvez já nem tivesse parentes vivos, vai saber. De todo modo, atesto que as velas queimaram a noite inteira. José, seja lá onde estiver, deve ter ficado feliz.

Um dos nossos mais assíduos ritualistas chamava-se Bibo, e sua devoção anual era tamanha que normalmente passava em minha casa na véspera para assegurar minha presença. “Não esqueça, amanhã é dia do ritual”. Bibo era um grande crítico de fotogenia e arquitetura defunta, mas tinha um olhar clínico para qualquer coisa que lhe soasse um pouco fora do comum. Bastava uma olhadela para o túmulo e sentenciava: “Aqui morreu um ourives. Ali morreu um atleta. Já este outro túmulo sugere que o defunto morreu de crime passional”.

Nunca soubemos se ele acertava ou não, mas não importava. Todos nós imaginávamos incríveis histórias de vida, amor e morte, e isso nos bastava. Também ríamos bastante, tanto que saíamos do cemitério ofegantes e com as bochechas doloridas, mas nunca consegui entender bem o porquê. Talvez porque assim nos distanciássemos de tanta dor e morbidez, talvez simplesmente porque éramos jovens e ríamos de tudo.

O caso é que no último ritual em que estivemos em grande número, um fotógrafo nos vendo assim tão jovens, tão juntos e tão vulneráveis, aproximou-se e nos propôs tirar uma foto do grupo. Disse que naquele momento só teríamos que pagar a metade, que a outra metade receberia quando nos entregasse a foto. Que era irmão da diretora de nossa escola, que poderíamos pegar a foto na casa dela dentro de duas semanas. Ainda lembro seu nome: Danda. E assim foi, fizemos uma vaquinha e Danda nos reuniu, cruzes, túmulos e velas ao fundo, e tirou duas fotos cujo flash nos deixou temporariamente zonzos.

A foto era assim: um grupo de jovens, garotos e garotas, sorridentes, abraçados como se fossem um, e como se o presente fosse eterno. Alguns punham chifres nos outros, outros faziam o V da vitória com os dedos médio e indicador, e os demais simplesmente sorriam.

Duas semanas depois, fui com Bibo à casa da diretora e ela, ao ouvir nossa história, levou a mão ao peito num princípio de infarto e quase gritou: “Danda? Mas faz mais de trinta anos que eu não vejo Danda!”

E isso foi suficiente para criar inúmeras teorias. Imaginem. A primeira, como não podia deixar de ser, foi a de que Danda era um fantasma, que levou nossa fotografia para o mundo dos mortos, quiçá para ornamentar a sala de estar de sabe-se lá que espírito. Os mais histéricos propuseram que nossa morte era apenas uma questão de dias, e os mais materialistas dizíamos, com desdém: “Que nada, era só um golpista. Golpista!”

Com aquela foto que jamais veríamos senão em nossas lembranças, parece que encerramos o ciclo-ritual, e jamais voltamos a nos reunir daquela forma. E Danda, o Golpista, esteja lá onde estiver hoje em dia, foi o toque de poesia sem o qual qualquer fim é um fim banal.