sábado, 2 de setembro de 2017

Um dos motivos

girl-reading

Outro dia um garoto de alguma coisa entre 10 e 12 anos chegou na livraria com seus pais e me perguntou, a voz trêmula, pelo livro X do autor Z. Por acaso teríamos?

Como conhecia o autor, pulei todo o suspense de olhar no buscador do sistema e me virei para onde se aglomeravam os livros de literatura fantástica. Dali mesmo vislumbrei o calhamaço e disse-lhe sim, temos, só um minuto.

Fui até a prateleira e retirei o livro, era o único exemplar, e entreguei ao garoto, que o segurou com a mesma reverência com que seguraria algum artefato mágico e sagrado.

O que aquele livro certamente era para ele.

Sei disso não só pela forma como ele o segurou, mas também pela gratidão com que me olhou, pelo tom de voz com que disse “Caramba! Obrigado!”, e com a rapidez com que praticamente correu em direção ao caixa sem sequer perguntar o preço. Os pais, é claro, agradeceram e o acompanharam satisfeitos: pagariam quanto fosse pelo calhamaço com o maior prazer do mundo. Vi isso em seus olhos.

Uma cena banal, há quem observe, até mesmo corriqueira em se tratando da rotina livreira, mas mesmo assim me comoveu, e é deles que lembro mais. Talvez fosse a idade do garoto, talvez sua magreza ou seu tom de pele, até mesmo o gosto pelo fantástico. Ou então seus pais, que me lembravam tanto os meus próprios, com toda aquela juventude e simplicidade.

Consegui ver, num lapso, o garoto chegando em casa, correndo para o seu local de leitura favorito, esticando-se confortavelmente e começando a ler seu novo livro. Era assim que eu fazia na época em que tinha sua mesma idade, com livros ou gibis, patrocinado por meus amados pais. Era seguro me refugiar naquelas páginas, longe da violência ridícula que começava a tomar forma em meu bairro e que levou tantos amigos e conhecidos.

E esse é um dos motivos pelos quais acredito na leitura: ela me salvou, já salvou outros. E é por isso que sou cuidadoso na hora de fazer uma recomendação a alguém que “quer tomar gosto pela leitura”. Sei que uma experiência prazerosa irá torná-la leitora pelo resto da vida, e uma experiência traumática atuará quiçá na mesma proporção, mas no sentido perigosamente oposto.