quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Brincadeira de Criança

As crianças do condomínio estão armadas. Digo, os pais as presentearam com coloridas reproduções de armas de fogo. “Ah, são de plástico”, dizem, “são apenas armas de brinquedo” — o que sempre me causa uma enorme confusão mental: arma de brinquedo? Bom, de todo modo, estão armadas, e brincam de, pasmem, polícia. Não uma polícia qualquer, mas de Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Juro. Ontem tive oportunidade de observá-las. O dia estava quente, eu estava de folga, resolvi descer à alameda para tomar um sorvete e terminar a leitura de O Livro de Areia, do Borges. A criançada, meninos e meninas, brincava solta, e dividiam-se em dois grupos: os armados e os motorizados. Motorizado é modo de dizer, naturalmente, mas estes por sua vez dividiam-se em os de patinete, os de bicicleta, e os de hoverboard — algo que parece ter saído diretamente de algum filme de ficção científica.

Bom, brincavam de Polícia, eu dizia, e a brincadeira consistia no seguinte: os armados haviam montado uma blitz e inspecionavam os motorizados sempre que estes davam uma volta na alameda. A abordagem era agressiva — ouvi alguns termos que soariam naturais em quartéis, mas que soavam ridículos na boca de crianças —, e quando um deles resolveu furar a blitz, p-a-s-m-e-m, um garoto do grupo dos policiais o encheu de balas imaginárias, acionando um dispositivo da sua .12 cor-de-laranja que simulava barulhos artificiais de tiro.

Fiquei perplexo. Perplexo porque mais cedo havia lido sobre um policial que acabou matando uma garota de 9 anos numa situação parecida — ela ia no banco de trás do carro dirigido pelo pai, que não quis parar na blitz por causa do bebê, que estava no colo da mãe e não na cadeirinha, como manda a lei.

Perplexo porque nunca imaginei que o absurdo em que estamos vivendo estivesse tão naturalizado a ponto de ter virado brincadeira infantil.

Perplexo pelos pais — havia alguns deles na alameda — não terem se dado conta desse absurdo.

Dizem que exagero em minha perplexidade. “Ah, Denser, são apenas crianças etc.”

Verdade, são apenas crianças. Isso só aumenta ainda mais minha perplexidade: não pelo que as crianças fazem, mas pelo que os adultos ignoram.

Mas está tudo bem, estou exagerando em minha perplexidade, claro, afinal sou um exagerado por natureza.

O problema é que, não faz muito tempo, pegaram outras crianças brincando de tráfico de drogas — usavam saquinhos com açúcar para simular cocaína —, e a julgar pelo andar da carruagem em breve estarão brincando de homicídio ou, pior, de Congresso Nacional.

Será mesmo que exagero? Espero, de verdade, que sim.