quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Desabafo de um caipira

Sempre morei em casa. Casa, e pra completar no interior, onde o único barulho pela manhã era o do canto dos pássaros que, juro, era meu despertador. Lá, o sol não apenas nascia primeiro, mas seus raios atravessavam frescos as frestas da minha janela, e como dedos delicados tocavam minha face, me convidando a levantar para mais um belo dia.

O despertar era um ritual maravilhoso. O dia, que se iniciava com o canto do galo e terminava (mais uma vez, juro) com o tritrilar dos grilos e o coachar dos sapos, era preenchido com afazeres em geral sem correria, e a barulheira era limitada àquela feita dentro da fronteira do lar.

À noite tínhamos um dos meus espetáculos favoritos: a silenciosa dança dos vagalumes, corriqueiro nas noites mais escuras, mas que a expansão da iluminação pública parece ter feito perder o sentido. Se os vagalumes (pirilampos) se aposentaram ou cometeram suicídio, não sei dizer. Outra hora falarei deles.

Sempre morei em casa, dizia, e ainda por cima do interior. Por crescer assim, meu cérebro foi moldado à maneira da província, com olhar detalhista quando a informação visual é pouca, e perdido quando muita; com tato de reconhecer pedras e plantas; paladar sensível sobretudo a frutas, e olfato sobretudo a flores (no meu caso, levemente danificado por uma sinusite crônica), e o mais importante: audição particularmente sensível a barulhos.

Sobre a audição, que usamos principalmente para a comunicação, vale dizer ainda que ela evoluiu também para identificar ruídos ameaçadores: os olhos, por incrível que pareça, são mais lentos que os ouvidos (não acredite em mim, acredite no cânone da neurociência), e foi graças a estes últimos que muitos de nossos ancestrais não viraram o lanche da tarde de alguma espécie carnívora mais bem dotada de armas naturais.

E, não posso deixar passar esta obviedade em particular, a audição também nos levou ao transe através da música.

À paz de espírito através da música.

Ao êxtase através da música.

Às lágrimas através da música.

A vida em silêncio seria um erro.

Sim, porque há a música, e porque há a voz dos que amamos. Porque há palavras de amor e gargalhadas de crianças. Porque há a chuva, e há o fluxo dos rios. Porque há as suítes de Bach, e os brindes de bar. O ritmo, a declaração de amor.

Mas preciso voltar ao que dizia antes: em suma, sou um caipira. Tenho cérebro de caipira e sentidos de caipira, mas o pior de tudo é que sou um caipira que se perdeu de suas origens provincianas e migrou para a grande metrópole, a cidade sem estrelas, vertical, sem tempo a perder, obcecada pelas buzinas e pela ordem, mas caótica apesar disso.

E daí que pela primeira vez tenho a experiência de morar em condomínio. Já deve fazer uns três anos e ainda não me adaptei. Acredito que nunca vou me adaptar. Meus amigos de infância que hoje também moram em condomínio, concordam comigo. Já os que sempre moraram, não conseguem enxergar (ou melhor, ouvir) o absurdo que lhes cerca.

Acordo com a furadeira ou o martelo dos vizinhos, com o latido dos cachorros alheios, o berro de crianças sem rosto e as conversas de quem não me diz respeito. Meus ouvidos são diariamente estuprados pela manutenção cotidiana desta colmeia de lares empilhados, e à noite, bom, à noite vou dormir ao som de outras transas e — uma singularidade particularmente irritante — as gargalhadas ensandecidas de um casal de mulheres que há três anos gargalha diariamente até as 03:00 da manhã e que é responsável pela maior curiosidade que já nutri na vida: o que é tão engraçado, meu deus? Queria saber.

E basicamente é isso: a crônica de hoje é, mais que uma crítica a esse absurdo que é a vida condominial, o desabafo de um caipira fascinado por redes e quintais, que esta manhã buscou um lugar onde sentar com as pernas esticadas para ler uns poemas, escrever um pouco, e foi interrompido por um cara vestido com roupa de astronauta e um cortador de gramas do inferno.

Outro dia falo dos vagalumes.