segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Espírito Natalino

“Você pode me recomendar alguns livros pros meus netos?”

O livreiro virou-se em direção à voz e deu de cara com uma senhora de cerca de 50 anos, bastante vívida, carregada de sacolas. Numa simples olhadela, identificou nomes como Zara, Gucci e Sephora em grandes e imponentes sacolas pretas.

“Claro, qual a idade dos seus netos?”

“Dois anos um, sete meses outro”, disse.

“Hum, me acompanhe, por favor.”

No caminho até a seção infantil, que não era seu departamento, pensou nos livros que indicaria: coloridos, sem texto, de material resistente, talvez algum que funcionasse através da interação de um adulto com a criança, como são os livros com fantoches.

“Aqui, esses livros são feitos para bebês”, disse, mostrando alguns livros de banho, “Eles podem molhar, morder...”

“Quanto custa?”

E foi mais ou menos assim que passaram os próximos dez minutos: ele apresentando alguns livros, ela perguntando os respectivos preços. Explicou que estavam baratos, que queria algo na casa dos 60 ou 70 reais. Após algumas tentativas, encontraram os livros que a deixaram satisfeita ­— mais pelo preço que pelo conteúdo.

Já estava se dirigindo ao caixa quando se interrompeu subitamente e voltou ao livreiro.

“Esqueci o do filho da empregada. O que você tem na casa dos 15 ou 20 reais?”

O livreiro respirou fundo.

“O garoto já lê?”

“Lê ele já lê, mas você sabe como são essas classes inferiores.”

Não, o livreiro não sabia, pelo menos não no que diz respeito a fosse lá o que diabos ela estivesse tentando dizer. Com um nó na garganta cada vez maior, mostrou alguns livros — que por mais simples que fossem sempre estavam na casa dos 30 reais —, e teve que explicar que, em geral, livros infantis são mais caros que livros adultos.

“Ah, vou procurar outra coisa então.”

E lá se foi ela e suas sacolas em direção ao caixa, sem agradecimentos e sem despedidas.

***

Trata-se de uma história real, desnecessário dizer, e me atingiu sobremaneira que passei metade do meu natal com lágrimas embargadas em algum lugar entre a garganta e os olhos.

Foi inevitável lembrar de certas experiências da minha própria vida, claro, afinal eu mesmo já fui aquele garoto. Digo, minha mãe nunca foi empregada doméstica, mas eu já pertenci à tal “classe inferior” a qual ela se referia, qual seja: a do pobre.

É uma história longa, complicada, cheia de detalhes e que talvez só interesse a certos indivíduos da minha família, mas mesmo assim: houve uma época em que o mais próximo que eu podia chegar dos livros era, bom, não era. Simplesmente não havia livros por perto.

Daí que bem mais tarde, quando já estudava em uma escola pública municipal chamada Machado de Assis — durante a competente gestão do Diretor Mariano —, vi alguns poucos livros relativamente disponíveis (podíamos folheá-los durante o intervalo, mas nunca pegá-los emprestado), e sempre que possível os levava para casa escondido, onde lia de uma única vez, devolvia no dia seguinte e pegava outro. Uma nova modalidade de infração: o furto-empréstimo (estou com preguiça de inventar uma palavra melhor).

Até hoje desconfio de que a secretária sabia de meu comportamento, mas o encorajava tacitamente com sua discrição.

De qualquer forma, os livros chegaram a mim ou eu cheguei a eles, não importa: nos apaixonamos à primeira vista e estamos casados desde então. Apesar de só bem mais tarde ter alcançado condições de comprar livros, li quantos me caíram em mãos. Hoje, guardo a impressão de que os livros estão para mim como o pão com ovo para o Nelson Rodrigues: uma obsessão nascida da carência.

O resultado? Trabalho com eles, não consigo parar de comprá-los, e a leitura ainda é o maior de todos os meus prazeres. Já deixei muitos amigos esperando na mesa do bar para poder ficar em casa numa noite de sábado com a cara enfiada em alguma brochura.

Ainda hoje de vez em quando me aparece alguém oriundo do que a madame da história acima chamaria de “seus iguais” ou simplesmente de “a classe superior” e me confessa, como se se tratasse de um crime (e a meu ver não é outra coisa): “Nunca li nenhum livro.”

Em meu íntimo não consigo evitar certo desprezo por essas pessoas. Não me interpretem mal: o problema não é nunca terem lido um livro — algumas pessoas não podem se dar esse luxo —, mas, tendo condições para tal, evitarem-no durante uma vida inteira. Isso enquanto ainda há garotos como os da história acima.

Confesso: não sei se ele iria preferir o livro a qualquer outro brinquedo, mas sei a diferença que um livro, um simples livro pode fazer na vida de uma pessoa, e na vida de todos, portanto.

Feliz natal.