terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Saudades de Paris

Hoje acordei com saudades de Paris. Saudades de suas ruas — das largas e das estreitas —, de suas luzes, seu clima e seus cafés. Principalmente de seus cafés, onde toca-se boa música e troca-se um bom papo enquanto se come um croissant estalando de crocante. Dos garçons arrogantes de Paris, que saudade, dos fumantes elegantes de Paris. E das moças de boina de lã vermelha de Paris, por que não? Parece um filme a Paris da minha saudade.

Andar pelas ruas de Paris é sentir-se protagonista de sei lá que filme, é sentir-se artista importante, galã ocidental. Sou pelo menos dez vezes mais intelectual em Paris, e meu gosto musical se refina. Em Paris, sinto vontade de voltar a fumar, de gritar C’est la vie!, dizer Je t’aime a qualquer coisa, recitar Rimbaud em voz alta. Também me sinto mais erótico em Paris, mais sexy. Paris me melhora.

Que saudades de Paris.

Saudades das galerias de arte, saudades da Torre Eiffel, saudades de sentar onde Hemingway sentou, onde Fitzgerald sentou, e de comer onde Henry Miller passou fome.

Que saudades dos meus casos fortuitos de amor em Paris. Saudades de fazer amor com uma mulher mais velha, casada, em Paris. Uma mulher cujo marido sabia de suas puladas de cerca com o amante estrangeiro, mas não fazia nada, pois também sabia que jamais poderia concorrer com o artista que fugiu de uma terra selvagem, exótica, tropical.

Que saudades de duelar pela honra em Paris, de morrer sangrando no peito em Paris, enlouquecer em Paris.

Uma pena que nunca estive em Paris. Uma pena que a Paris da minha saudade seja a Paris do cinema e da literatura, do pedantismo do intelectual da elite, e do estudante de intercâmbio. Uma pena que a Paris da minha saudade seja a Paris sonhada na adolescência pobre em Tibiri, assistindo as raras fitas VHS de filmes franceses — garimpadas na locadora do Crê — e lendo Alexandre Dumas.

Talvez um dia eu sinta saudades da verdadeira Paris, mas até lá sigo com saudades verdadeiras apenas de Tibiri.