sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Não há alegria na Terra que justifique tantos risos

Já falei delas aqui: minhas vizinhas. Por algum motivo que ainda é um dos maiores mistérios da minha vida, elas gargalham loucamente todos os dias a partir das 00:00, e seguem gargalhando até por volta das 03:00. É um inferno.

Qualquer dia desses vou bater-lhes à porta:

— Por favor, queridas, já não aguento mais, o que, por deus, é tão engraçado?

Levarei no rosto uma expressão sobretudo ansiosa, e elas rirão ainda mais, se curvarão sem fôlego enquanto riem do trouxa rabugento da madrugada, do curioso imperdoável e seu pijama horroroso, de sua cara de pau:

— Isso são horas de bater na porta de alguém, meu senhor?

— Tanto quanto são horas de gargalhar feito um alucinado —, eu responderia.

E essa é que é a questão: que horas são horas de gargalhar assim? Não há alegria na terra que justifique tanta hilaridade. Ou será que o problema sou eu? Talvez seja, por isso me pus a pensar: “O que me faria gargalhar assim?”, e não encontrei nenhuma resposta que não envolvesse algum psicotrópico.

Pensando bem, talvez aí esteja a resposta para o grande mistério...

Bobagem. Haveriam outros sinais.

De todo modo, o brasileiro ri na mesma proporção em que faz piadas. É, antes de tudo, um gaiato. Foi graças a esse espírito humorístico que construímos essa nação, e é graças a ele que ela se mantém em pé e, mesmo capenga, caminha — sabe-se lá em direção a quê. Somos o equivalente a Nero tocando sua lira enquanto Roma arde, só que ao invés de tocar lira, fazemos piadas e gargalhamos alucinadamente.

Daí que chego à conclusão inevitável: não há na terra tanto motivo de riso, eu disse, mas certamente há razões de sobra para o desespero.

Taí: é de desespero que gargalhamos.

HUEHUEHUEHUEHUEHUE.

Também eu sou um desesperado. Esta noite, baterei acanhado à porta das minhas vizinhas.

— Olá, posso rir com vocês?

E gargalharemos nossos desesperos juntos até às 03:00 da madrugada.