sábado, 30 de maio de 2020

Coronga

Que os carentes de bom senso me perdoem, mas Covid-19 é nome de robô. Sou de uma época em que doença tinha nome de doença: catapora, caxumba, febre tifóide, febre amarela, peste bubônica. Era uma época em que as doenças se davam o respeito, e se faziam temer. Uma simples menção ao Sarampo já deixava o bairro inteiro de cabelo em pé. As crianças perguntavam à mãe se haviam sido vacinadas ou se já haviam sido contaminadas em épocas imemoriais — dávamos por certo que algumas doenças “só se pega uma vez”, e era libertador poder dizer: já tive, não terei mais.

Mas respeitávamos, sim, a doença. Algumas, quando mencionadas, tinham o poder de silenciar debates, de arrancar chapéus das cabeças mais duras; e havia também “aquela doença”, é claro. Ninguém tinha câncer naquela época. As pessoas tinham “aquela doença”, e todo mundo sabia do que estavam falando.

É por isso que quando ouvi que a praga de nossa geração se chamaria Covid-19, pensei: “Meu deus, que horror. Ninguém a levará a sério.” E a ideia de uma Covid-19 também me fazia pensar que teríamos a versão 2020, 2021, 2022 e daí por diante, como um automóvel. Foi por isso que convoquei uma reunião familiar de emergência e impus: aqui nesta casa só se falará Coronga. Coronga sim é nome de doença. 

“Soube de Fulano?”

“Que houve?”

“Morreu.”

“De quê?”, pergunta da qual já se conhece a resposta.

“Coronga.”

E o silêncio se impõe, e ninguém precisa falar mais nada. Como nos velhos tempos.

Ou ainda: “Venci a Coronga”, diria o sobrevivente, diante de um público cheio de admiração e respeito. Coronga. Se a Organização Mundial da Saúde lhe tivesse assim batizado, talvez não precisássemos fechar fronteiras. Ninguém se arriscaria a pegar a Coronga, a ficar corongado, seria uma doença terrível demais.