domingo, 31 de maio de 2020

Viver e não ter a vergonha de ser infeliz

Eu costumava me perguntar o que é, exatamente, viver. Mas estou cada dia mais convencido de que é possível sintetizar a resposta em uma única frase: viver é tentar chegar o mais longe que você puder com o máximo de frutos e o mínimo de danos. Desnecessário explicar, mas explico: nem todo tipo de frutos, mas todo tipo de dano.

O que significa, é óbvio, que nem só de males do corpo sofre o homem. E falar de frutos é atravessar sem mapas a fronteira do subjetivo: para alguns são seus bens, para outros seus filhos e daí por diante. Há até quem abra a boca e diga “minha arte”, veja só... De qualquer modo, esta crônica não é sobre isso. Esta crônica é sobre os males do espírito.

Males do espírito. Em algum momento começamos a perceber que vivemos como uma entidade autônoma, e já então estamos maculados até o fim de nossos dias. Foi o “não” de mamãe que nos malucou. O “estou ocupado” de papai. Ou mesmo o eventual silêncio de ambos. O tapinha irritado, a bronca, o castigo, a vontade insatisfeita, até mesmo a lei da gravidade, tudo nos machuca permanentemente, e quase tudo nos frustra. Eis a alvenaria com que somos edificados.

É que nascemos moles, esponjosos, e somos condicionados por natureza a absorver e endurecer, pouco a pouco. Nascemos esponja, e se vivermos o suficiente morreremos pedra. Alguns morrem esponja e nisso há sempre algo de trágico.

Uma vez vivos, nossa principal condição é pulsar, pulsamos e vibramos de modo violento. Tudo, tudo em nossa carne vibra e pulsa. Somos vermelhos por dentro. O que entra às vezes nos relaxa, noutras nos inflama, e é no fluxo que irriga cada poro que o corpo se impõe tudo o que nos entra até chegar ao que em nós já não é matéria. É ali que se imortaliza.

Nossa natureza sabe que a felicidade que experimentaremos em vida são apenas vírgulas em um fluxo interminável de consciência. Sua missão é nos esconder isso, criar a ilusão de que a felicidade “tá bem na nossa cara”, de modo que continuamos seguindo em frente, como um jumento diante de uma cenoura presa numa vara de pesca, para no fim perceber que a vida não era bem o que esperávamos.

Por isso é preciso que alguém te esbofeteie o quanto antes: acorda. Não há cenoura alguma. Há no máximo um rabanete sujo de terra caído no meio do caminho. Acorda. Seguir em frente um pouco mais consciente te dará a oportunidade de ver coisas que ninguém mais vê. Enquanto eles babam por suas cenouras inexistentes, você poderá assistir a esse grotesco espetáculo espumante de babas, e também as estrelas. Sim, as estrelas. Por mais que não tenham quem as admire, elas continuarão brilhando. Mas brilharão mais belo a olhos atentos.

Ninguém chegará imaculado ao fim da jornada em direção ao estado de pedra. Ninguém. E a estrada é mais fácil pra quem não enxerga seus percalços. Tudo bem. Mas ei: já que caminhamos inevitavelmente em direção ao mesmo abismo, não é melhor ter consciência do caminho? Eu acredito que sim.

Ah!, aos que ficaram se perguntando “Tudo bem, mas e quais são os outros tipos de frutos que você falou no final do primeiro parágrafo?”, respondo: os que não dão frutos, meus amigos, os que não dão frutos.