segunda-feira, 15 de junho de 2020

A cafeína nossa de cada dia

Eu sou viciado em cafeína. Sei disso porque se eu passar um único dia sem café, inevitavelmente terei dor de cabeça. Uma dor de cabeça, diga-se, bem característica: lado esquerdo, sentido diagonal, quase na divisória entre o lobo frontal e parietal. É o que eu chamo de “minha dor de café”.

Mas em virtude de uma gastrite desagradável que me acompanha mais ou menos desde 2010, reduzi consideravelmente o consumo, e hoje não passo de no máximo três xícaras por dia, sendo a mais sagrada delas pela manhã, logo após o desjejum. Não uso nenhuma espécie de adoçante, e advogo a tese de que quem gosta de açúcar no café na verdade não gosta de café, mas de açúcar.

Gosto de bebê-lo, portanto, puro e desacompanhado (no máximo um cookie levemente adocicado). De preferência em silêncio, apreciando o sabor, ou numa conversa agradável com alguém querido. Acho que cafés são ótimos acompanhantes não apenas para uma boa conversa, mas também para uma boa solidão. Este é o motivo pelo qual considero um Café mais ou menos vazio o lugar de trabalho ideal para um escritor, principalmente se tiver um smooth jazz em som ambiente tornando tudo mais agradável.

Por esse motivo, não gosto do Starbucks Café, aquele lugar impossível, apesar de adorar o café do Starbucks. Ou melhor: os cafés. Gosto de todos que já bebi ali.

Meu temperamento, entretanto, me obriga a freqüentar locais mais sorumbáticos, o que vale não só para Cafés. É que excessos de barulho, de sorrisos, de gritos e alegrias também costumam fazer arder a minha gastrite.

No âmbito doméstico, freqüento o Café Varanda, com uma frustrante vista para o bloco de apartamentos em frente. Por isso me ocupo sobretudo da minha paisagem interior, com a qual, apesar de velha conhecida, jamais me entedio. Coisa de gente introspectiva: ensimesmar-se e ali se perder ao ponto de precisar ser resgatado de si. Às vezes, quando não estou a fim de navegar a mim mesmo, levo um livro, que na maioria das vezes é a companhia ideal para qualquer contexto. É o meu momento sagrado, minha meditação, eis o motivo pelo qual em meu pai-nosso não se fala em pão, mas em cafeína.