terça-feira, 16 de junho de 2020

Algumas paixões merecem a eternidade

Dizem que se um escritor se apaixonar por você, você jamais morrerá. Não estou seguro de que seja uma verdade absoluta, mas reconheço nessa frase alguma verdade. É que há paixões e paixões: algumas merecem a eternidade, outras não.

É igual a tudo na vida: há o que ficará contigo até o fim, e há o que se perderá. E até onde consegui entender a questão, quem sai de uma paixão já não é o mesmo que nela entrou, de modo que o tempo da obra, da eternização, também conta, inclusive em seus termos. Principalmente em seus termos.

Se eu, escritor, tivesse decidido te imortalizar quando me apaixonei por ti, tua imortalidade seria uma. Se decidisse te imortalizar hoje, outra. Como será a imortalidade que te darei amanhã?

Vale ressaltar, também, que muitas vezes multiplicamos, diluímos, dividimos tudo aquilo que nos serve de... Inspiração? Não gosto desse termo. Percebemos bem o que nos encobre e abriga, observamos tudo o que interage conosco e com que interagimos, e é verdade: damos atenção especial ao que queima, arde, inflama; ao que de algum modo nos fere, seja com carícias ou sevícias — E antes que me corrijam: carícias também ferem, muitas vezes mais do que qualquer ofensa.

E na hora de sentar finalmente, reviramos toda a lama que cresceu em nós à procura de algo sobre o qual tenhamos o que dizer. Às vezes é uma paixão, mas de vez em quando acontece de ser uma pedra. Matéria prima é, portanto, um termo mais justo que inspiração. É que tira, pelo menos um pouco, o caráter místico da arte literária (e não se engane: há sim algo de místico em qualquer trabalho criativo, o problema é reputar a isso uma conditio sine qua non), deixando mais espaço tanto para o que é emocional quanto para o que é racional.

Mas estou tergiversando. Voltemos à paixão. O que fazer com aquela que se extinguiu em cinzas? A que não passou de um erro de juízo, da qual nada se pode aproveitar, nem mesmo uma pedra? Creio que é difícil aceitar que isso seja possível, afinal de contas, tudo o que vivemos de algum modo nos compõe, e até mesmo o que ignoramos em nós estará presente enquanto também estivermos. Por que não estaria em nossas letras? Tudo bem. É um ótimo argumento com o qual concordo: de algum modo tudo vai ficando, não tem escapatória. Mas esse texto não é sobre isso: é sobre a vontade consciente de trabalhar a questão literariamente, e sobre o que, deste modo, merece aspirar, junto com a obra, o limitado panteão do que habita a eternidade.