segunda-feira, 8 de junho de 2020

Aos trinta e dois anos vi a chuva pela primeira vez

Duas informações para fazer valer a leitura desta crônica. Primeira: Dostoiévski disse que a beleza salvará o mundo. A frase está em O Idiota, salvo engano, três vezes: “A beleza salvará o mundo.” Cinco palavras que valem discussões para uma vida inteira. Ou várias. Mas você provavelmente já sabia disso. O que você talvez não saiba é da segunda: há quem passe mal diante da beleza, e o nome da doença de quem passa mal diante da beleza é Síndrome de Stendhal. Trata-se de uma condição psicossomática mediante a qual o afetado fica em vias de ter uma síncope, e às vezes o tem de fato. Juro: há quem desmaie de beleza.

Mas infelizmente não é o meu caso. Apesar de ser hiperculturêmico (autodiagnosticado, diga-se) desde pelo menos os três anos de idade, a beleza nunca me derrubou. É verdade que já passei mal, já fiquei sem fôlego, chorei, tremi, fiquei zonzo. Mas desmaiar, não, nunca aconteceu.

E é curioso: essa sensibilidade, que a meu ver não deixa de ter sua própria beleza, é vista por algumas pessoas como fraqueza, “coisa de viadinho”. Era assim nos anos 90, e continua sendo assim nos anos 20 do século XXI. É que o mundo continua sendo administrado pela turma do fundão, e a mediocridade enxerga o forte onde mora o brucutu.

Lembro bem da época da escola: uma admiradora me enviava bilhetes anônimos questionando minha masculinidade pelo simples fato de eu gostar de poesia (ah, como eu me divertia com aqueles bilhetes gramaticamente hediondos!) e preferir passar os intervalos com a cara enfiada nos livros ao invés de correndo atrás de uma bola.

Mas voltemos à beleza. Qual foi a última coisa verdadeiramente bela que você viu, ouviu ou leu? Vou responder a minha. Gostaria de enfeitar esta crônica, inflar bem os pulmões e escrever: “Estava na basílica de Santa Croce deslumbrado pelos afrescos de Giotto quando fui invadido por súbita...”, mas seria mentira. A verdade é mais bruta, mais simples, mais mundana: foi a chuva. A mesma chuva que chove em qualquer lugar.

É que aos trinta e dois anos meu filho me fez ver a chuva pela primeira vez. Lembro bem: ele ainda engatinhava e chovia torrencialmente quando o peguei no colo e o levei na varanda. Era a primeira vez que chovia de verdade desde que ele ganhara alguma curiosidade sobre as coisas, e era a primeira vez, portanto, que ele a veria. E seu deslumbramento foi tal que também me deslumbrou: ele arregalou os olhos e a boca, me encarou com ceticismo, voltou a olhar para a chuva e, com o fascínio e a insegurança com que um adulto acariciaria o chifre de um unicórnio, ergueu a mão para tocá-la. Foi então que, com ele apertado em meu colo, o coraçãozinho batendo a toda velocidade, também arregalei os olhos e a boca, e também ergui a mão para tocá-la. Foi o mais próximo que já cheguei de um desmaio. Se não caí foi tão somente para protegê-lo. E também foi ali que descobri irremediavelmente que Dostoiévski tinha razão: a beleza salvará o mundo.