sábado, 13 de junho de 2020

Bigodes

Bigode é uma palavra que vem do inglês Be God, e originalmente significava Ser Deus. Com o tempo, passou a designar os pelos da barba que crescem acima do lábio superior dos homens e, excepcionalmente, de algumas mulheres. Sobre elas, há inclusive um dito popular que ainda mantém relação com a etimologia original: “Mulher de bigode nem o diabo pode.”, uma clara alusão ao fato de que para vencer o diabo é preciso be god.

Nietzsche, que era um filólogo alemão, sabia bem disso. Por isso deixou crescer o bigode tão logo concebeu o conceito de ubermensch (além-do-homem, ou seja, deus, be god) e nunca mais o raspou. Era, segundo ele, o símbolo definitivo de hombridade, virilidade, moral superior e vontade de potência. Houvesse por parte dos filósofos que o sucederam algum conhecimento filológico, não teriam feito nenhuma confusão acerca do termo além-do-homem, e teriam publicado menos livros sobre isso. Nos primórdios da popularização do pensamento nietzscheano, contudo, Elizabeth Nietzsche (irmã do filólogo) sabia da relação, e foi ela quem sugeriu a Hitler que deixasse crescer um bigode. “Ninguém seguirá um líder sem bigode”, disse ela, “então trate de fazer um bastante característico.” Ele, que de burro não tinha nada, aceitou a sugestão e hoje, em qualquer lugar do mundo, se você deixar um pequeno bigode em formato quadrado (seja no rosto, seja na depilação íntima), irão relacioná-lo a Hitler, inevitavelmente. Stálin também conhecia o segredo do bigode, diga-se a título de nota explicativa aos leitores de esquerda, mas não fez uso dele tão bem quanto Hitler.

No início desta quarentena, a primeira coisa que fiz ao me isolar foi deixar crescer o bigode. Não foi algo deliberado, portanto não saberei lhes dizer o motivo: eu, que nunca fui um embigodado, simplesmente cheguei em casa, peguei a máquina e raspei toda a barba, com exceção do bigode — que cultivo desde então. Conforme o tempo passou, percebi através das redes sociais que vários amigos, colegas e conhecidos, muitos dos quais não conheciam uns aos outros, também começaram a cultivar um portentoso bigode. Intrigado, percebi que era um comportamento padrão não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro, levando até algumas revistas famosas a escrever a respeito. Permaneço intrigado, daí a razão desta crônica: o que nos levou a deixar crescer o bigode? Não tem jeito, sou um homem que se intriga com muita facilidade. Mais uma vez, Freud não explicará. Jung, por outro lado, talvez tenha uma resposta mais aceitável: algo a ver com o tal do inconsciente coletivo, lembranças ancestrais de tempos difíceis, alquimia de sobrevivência.

Minha hipótese é bem mais simplória: deixamos crescer o bigode para tentar enganar o vírus.