quarta-feira, 17 de junho de 2020

Crônica é o que sai

Um dos motivos pelos quais voltei a escrever crônicas é bem simples: queria recriar o hábito de escrever todos os dias sem qualquer outro compromisso. É preciso que se diga: trata-se de um hábito difícil de manter em condições normais, agora imagine no atual contexto de pandemia e isolamento social, quando optei por não fazer caminhadas reflexivas acerca de eventuais temas, e evitar os políticos. Sim, é verdade que o problema da caminhada seria fácil de resolver se eu simplesmente colocasse uma máscara no rosto e saísse por aí, mas aqui temos grupos de risco e considerei uma decisão sábia diminuir ao máximo as possibilidades de contágio, o que implica em não fazer saídas desnecessárias. Quanto ao problema dos temas políticos: sou um homem emocional quando se trata de política, por isso é melhor não.

De todo modo, eu sabia que haveria dias em que eu não teria assunto, portanto o assunto seria a própria crônica; e sabia que a velocidade e a freqüência com a qual se escreve e se publica crônicas requer, inevitavelmente, o que chamo de desapego criativo. Explico em fórmula sartreana: escrever é essencial, publicar é contingente.  Mas publico. Publico e portanto preciso estar desapegado do texto. A crônica ficou mais ou menos? Publico. Passou erro de revisão? Publico. Ficou mal desenvolvida? Publico. Teria algo mais a dizer sobre o assunto? Publico e talvez revisite o tema em crônica futura.

O apego restará guardado e cultivado principalmente para meus outros trabalhos (romances, novelas, contos). É uma estratégia, é claro, pois assim mato minha ânsia de publicar alguma coisa e, amaciado, dedico as energias remanescentes ao que me é mais caro.