segunda-feira, 1 de junho de 2020

Entre a biblioteca universitária e o Bar do Péla

Era 2006 e eu estava no primeiro semestre da faculdade de Letras da Universidade Estadual da Paraíba, um curso que não cheguei sequer perto de concluir por motivos do mais puro e absoluto enfado. As aulas eram tão excitantes que me deixavam em coma. Jamais me esquecerei da professora de Lingüística lendo interminavelmente, aula após aula, páginas e páginas de uma apostila sobre Saussure; do professor de Teoria Literária suando em bicas enquanto nos narrava o Édipo; da professora de Língua Portuguesa I explicando exceções, e exceções das exceções da nossa gramática normativa. E principalmente: jamais me esquecerei da professora de Latim agarrada com o Gradus Primus do Rónai a recitar, ad nauseam: “Puella cantat, magistra educat, aquila volat”. Foi a primeira vez na vida que eu quis matar alguém.

O tédio era tão grande que minha pressão baixava. E foi após uma aula de Linguística particularmente chata que Humberto, o poeta louco, me resgatou. Ele fazia História, era veterano, e pareceu distinguir nos meus olhos um mudo e desesperado pedido de socorro.

“Vamos pro Bar do Péla?”

Não titubeei.

“Vamos.”  

E foi a primeira de muitas, cotidianas idas. Bar do Péla era um nome apócrifo. Apenas os estudantes o chamavam assim. Ficava a cerca de três quilômetros da faculdade e caminhávamos até lá salivando por uma cerveja gelada. Era, basicamente, um pé sujo de beira de estrada freqüentado por universitários, onde de vez em quando algum trabalhador parava pra beber uma meiota ou entornar uma lapadinha. Na frente do bar, apenas duas mesas de cimento pegajosas e uma infinidade de moscas. Moscas de todas as cores, tipos e tamanhos. Era como se fosse a Convenção Internacional das Muscidae. Não importava o que passássemos na mesa para expulsá-las, aquelas moscas estavam acostumadas a tudo. Com o tempo, nós é que tivemos que nos adaptar, aprender a dividir nossa bebida, nosso tira-gosto e nossas conversas com elas.

Bebíamos principalmente cerveja e vinho barato. Um vinho horroroso cujo nome me escapa, mas que vinha numa garrafa de plástico e deixava a língua azul. Pra comer, por algum motivo incognoscível lembro principalmente das codornas: crocantes e arreganhadas, pareciam mais com rãs do que com qualquer outra coisa, e as devorávamos, vorazes, com farofa e limão. A despeito da higiene precária e do cardápio limitado, o Bar do Péla era a verdadeira Universidade daquela região. Era ali, em debates acalorados e multidisciplinares, que discutíamos todas as questões verdadeiramente importantes como, por exemplo, a ética kantiana, o niilismo, o eterno retorno, o ser e o tempo. Foi ali, naquelas mesas imundas, que questionamos e discutimos toda e qualquer autoridade, que rompemos muitas de nossas barreiras morais e intelectuais, e que tocamos e cantamos a plenos pulmões todas as boas músicas do nosso rock e da nossa MPB.  

Meu segundo refúgio favorito — ou primeiro, a depender do meu humor — era a Biblioteca Universitária. Eu a conhecia melhor do que a minha própria casa. Passava horas ali, livro por livro, prateleira por prateleira, estante por estante. Ainda sou capaz de citar alguns dos livros que peguei emprestado: O livro dos insultos, de Mencken; Os Best-sellers proibidos, do Darnton; Asfalto Selvagem, Cem anos de solidão. A cada quinze dias eu renovava a tríade de livros que levava pra casa: Clarice Lispector, Virginia Woolf, qualquer coisa que me despertasse a curiosidade ou o interesse. Cheguei até mesmo a ler um livro sobre os árabes, sabe deus por quê.

E foi assim, entre o Bar do Péla e a Biblioteca Universitária, que passei meus poucos semestres como estudante de Letras antes de me entediar ao ponto de decidir chutar o balde. Não era pra mim. A faculdade, quero dizer. Bares e Bibliotecas de algum modo sempre cruzaram meu caminho.