sexta-feira, 5 de junho de 2020

Freud não explica

Noite, tarde da. Silêncio quase total. Enfio os fones nos ouvidos e coloco uma música do Leonard Cohen (meu rivotril particular). Para que você entenda melhor o que quero dizer: a música é Famous Blue Raincoat, do álbum Songs of Love and hate. Coloque aí você também e venha comigo.

Fecho os olhos. Lamento já não fumar, lamento não ter comprado uma garrafa de vinho tinto mais cedo — impossível conseguir agora —, lamento qualquer coisa indefinida — quero dizer, há uma sensação de lamento, mas não há um objeto lamentado. Gostaria que fizesse frio. Não faz. Aqui é o Rio de Janeiro, aqui nunca faz frio. Não de verdade.

Súbito lembro do mar. O mar, pelo amor de deus. Não vou escrever sobre o mar. Não cairei nessa armadilha. Mas caio: escreverei sobre o mar. Um mar específico. O mar dos meus sonhos recorrentes. É que sonhei com ele de novo semana passada, e agora que estou perto de dormir, ele me vem como quase sempre me vem. O mar: cinza, agressivo, espelho de um céu também cinza, também agressivo. Estou sentado na areia como sempre, abraço meus joelhos como sempre, sinto que devo sair dali o mais rápido possível porque algo muito ruim está prestes a acontecer. Como sempre.

Mas eu não saio. Não saio. Como sempre, espero. Espero até que seja tarde demais para simplesmente fugir: o mar cada vez mais cinza, cada vez mais agressivo e eu ali, esperando. De repente cai do céu uma tempestade aterrorizante. Cai não é bem a palavra. Desaba. De repente desaba do céu uma tempestade aterrorizante.

O mar, reflexo do céu, reage, se agita, começa a se jogar contra tudo o que pode se jogar, se despedaça e se joga de novo. Eu me levanto, o coração acelerado, limpando a areia da bunda, e penso: preciso sair daqui. E saio, mas não com a pressa necessária, não a tempo de me salvar. E o mar vem, se joga feito rede sobre mim, me arrasta feito pesca, me engole e me sufoca. É aqui que acordo: sem fôlego, afogado, (ou desafogado, visto que sonhei), estendendo as mãos para me agarrar em algo, coisas assim.

Deve fazer pelo menos uns vinte anos que tenho esse sonho. A frequência varia: uma vez por semana, por mês, por trimestre. Nunca demora mais que um trimestre pra ele voltar. Sempre volta. Como uma onda. Já Me perguntei mil vezes o que significa, já o interpretei de milhares de formas diferentes. Numa das minhas leituras, o mar é o mundo; noutras, minha aspiração literária. Já houve dias em que interpretei: é o Brasil. Mas confesso que não sei. Nunca saberei. Já consultei psicanalistas que me vieram com abobrinhas que eram verdadeiros abobrões. Teve até uma que me veio com um inusitado “complexo de Édipo”. Era o Godzilla das abobrinhas: para ela, o mar era meu pai, o céu minha mãe. Ou o contrário. Isso, o contrário: a captura era um chamado ao útero, sufocante proteção molhada et Cetera.  Risquei seu número de minha agenda. Sigo à procura de uma interpretação que faça algum sentido.