quarta-feira, 3 de junho de 2020

Já visto

Às vezes chego ao final do dia em estado de demência, um verdadeiro vegetal intelectual. Em dias assim, o melhor a fazer é ficar deitado vegetando ao som de uma boa música até o sono resolver dar o ar de sua graça. Ler? Nem adianta tentar. Escrever? Perda de tempo. Ver um filme? Eu tenho um péssimo gosto por cinema cabeça. Não consigo acompanhar meus filminhos em dias assim.

Hoje é um desses dias, mas eu me comprometi a escrever crônicas diárias então cá estou: deitado, derretido na cama, procurando um tema. E é óbvio que o tema seria algo transitando entre a obrigação autoimposta, o cansaço, o processo criativo, minha incompetência como cronista et cetera.
Mas não vou me render ao óbvio. Escreverei sobre déjà vu. Não é possível que eu não tenha algo a dizer sobre déjà vu.

E tenho: a primeira vez que ouvi essa expressão foi numa sessão espírita, em meados de 2004. Lembro de todos os detalhes: Marcos, nosso anfitrião, infelizmente já falecido (ele iria preferir o termo “desencarnado”), e seu irmão Pádua, uma enciclopédia viva, além de brilhante matemático, estavam discutindo sobre eventuais lembranças de vidas passadas, quando alguém ao meu lado esticou o braço e jogou a questão em cima da mesa:

“E o déjà vu?”

Eu conhecia a sensação a qual o termo se referia (todo mundo conhece), mas por desconhecer o termo em si me limitei a franzir o cenho e olhar para Pádua. Ele não decepcionou:

“Déjà vu é uma expressão francesa que significa, literalmente, já visto. Refere-se à sensação de...”

E começou a discorrer brilhantemente sobre a questão, deixando bem claro que tal fenômeno talâmico era apenas mais uma das milhares, milhões de evidências das nossas reencarnações passadas.

Saí daquela reunião pensando em Nietzsche e no eterno retorno do mesmo, que me parecia, e ainda me parece, bem mais convincente — e nem sei se Nietzsche já escreveu uma vírgula sobre déjà vu.
Mas o que eu queria mesmo dizer é isso: a sensação de “já visto” se tornou muito familiar para mim. Tenho dezenas de “já vistos” por semana, centenas por mês, milhares por ano. Estou tendo um agora, inclusive. Imagine só como eu me sinto ao ler o jornal pela manhã “para começar o dia bem informado”: é já visto atrás de já visto. Ao navegar na internet: já visto atrás de já visto. E entre um já visto e outro vou vivendo meus dias com a sensação terrível de que já vi o suficiente.