domingo, 7 de junho de 2020

Mas é claro que sim

Quando se trata de opiniões e declarações absurdas, nenhuma mídia ganha da Internet. Nenhuma. Veja só que coisa magnífica eu li ontem: uma jovem escritora (jovens, evidentemente, lideram a lista dos disseminadores de absurdos na Internet) escreveu em uma de suas redes sociais algo que não vou transcrever para não comprometer o estilo desta crônica, mas que se resume a: o escritor precisa ocupar certo lugar para ter o direito de escrever sobre certos temas, e criar certos personagens.

Por exemplo: você precisa ser um andróide para escrever sobre um personagem andróide; um cachorro para escrever sobre um personagem cachorro; um maneta para escrever sobre um personagem maneta; um maníaco sexual para escrever sobre um personagem maníaco sexual; e daí por diante. A lista de possibilidades é infinita, mas a de exemplos citados por nossa jovem escritora transita pelas chamadas minorias. Vocês conhecem o discurso. É inacreditável que uma escritora, mesmo jovem, dê voz a esses absurdos. Mas, de qualquer modo, vou registrar minha gratidão: me deu o mote para esta crônica e me fez considerar sobre o que estou legitimado a escrever, segundo sua lógica: aparentemente posso escrever sem problemas sobre homens pardos e heterossexuais que nasceram na região nordeste do Brasil no ano de 1985 de nosso senhor, e que são destros e ligeiramente calvos. Não é maravilhoso?

Ah, e só pra constar: Philip K. Dick não era andróide (pelo menos não segundo os documentos oficiais), a Virginia Woolf não era um cachorro (juro que não), J. M. Barrie não era maneta (nem criança, nem voava) e Nabokov, apesar de ser um chato de galochas, não era nenhum maníaco sexual.