domingo, 14 de junho de 2020

Os mortos de Romero estão vivos (mais uma vez)

Agora que estavam mortos, os mortos de George Romero não sabiam o que fazer da vida, então foram pro shopping, naturalmente. Porque é isso que você faz quando você está morto e não sabe o que fazer com sua vida: você vai ao shopping.

Bater pernas, vislumbrar a beleza estonteante das vitrines, cobiçar itens de valor inalcançável, eventualmente comprar algo de que no fundo você não precisa, ou simplesmente encher o saco dos lojistas perguntando sobre produtos que você não vai comprar. Talvez se valer de sua condição de “cliente” para se sentir importante, superior, ser bem tratado, — como você acha que merece — ou mesmo “jogar conversa fora”, visto que sai mais barato do que a terapia que você não quer pagar não por que não pode ou não precisa, mas porque acha que fazer terapia é coisa de gente maluca.

E, é claro, também há registro de quem precise ir ao shopping única e exclusivamente para “ver gente bonita e bem vestida”, uma declaração da qual sou testemunha auditiva.

Voltemos a Romero: você já deve ter visto essa história, está em um filme de 1978, e em um remake de 2004. Vi o primeiro em VHS alugado lá na locadora do Crê, e o segundo nos cinemas, com meu amigo Cristiano. Lembro de ter gostado. E lembro de ter saído do cinema, que ficava, surpresa!, num shopping, com a impressão de que havia alguma ironia muito mais sutil do que aquela que a princípio se mostrava tão óbvia: Okay, Romerão, eles morreram e continuaram indo ao shopping. É um automatismo, certo? Não sabem exatamente o que procuram, mas precisam comer, alguns buscam dolorosamente um céééérebro, supostamente para alimentar aquele estômago vazio, que na verdade deve ser alguma metáfora de outro tipo de vazio, o existencial. Os mortos, portanto, querem entrar no shopping. Aglomeram-se diante dele por todos os lados. Uma multidão boquiaberta e cambaleante, a baba escorrendo pelo canto da boca. Do lado de dentro, um pequeno grupo de vivos quer, opa, sair. Eles foram para o shopping convencidos pela propaganda de que se tratava de um lugar seguro, opa, e que ali encontrariam tudo de que precisavam, mas perceberam que 1. Não era bem assim e 2. O shopping só atendia suas ânsias e necessidades até certo ponto. Precisam, portanto, sair, e estão dispostos a sacrificar até mesmo a vida que ainda têm para se libertar daquilo que se apresentou como segurança e conforto, mas que se tornou, para eles, uma prisão perigosa.

Sábio e malandro Romerão. Qualquer dia vou rever os seus filmes. Enquanto não o faço, me distraio observando basbaque os mortos da ‘vida-imitando-a-arte’ que, enquanto o mundo enfrenta a pior crise sanitária dos últimos cem anos (no momento estamos a poucos dias de ultrapassar a marca dos 50 mil óbitos só no Brasil) precisam, URGENTEMENTE e a qualquer custo, comprar, como bem pontuou um internauta, “aquela almofada de lantejoulas da Riachuelo”. Os mais vulneráveis que se danem, que se danem os lojistas e suas famílias: o shopping tem que continuar.