sexta-feira, 29 de maio de 2020

Saudades Absurdas

Semana passada quase chorei de saudades. Não da mulher amada ou generalidades da infância, nada disso. Minha saudade era muito mais específica: era das goteiras do telhado da casa onde passei a infância. Uma casa simples, e que não tinha nada de engraçada. Tinha, sim, um conjugado de sala e cozinha, um quarto, um banheiro e muitas, inúmeras goteiras. Eu passava horas deslumbrado com aquelas goteiras. Nos dias de chuva, me encantava a orquestra dos pingos d’água; nos de sol, a insuperável dança das poeiras através das réstias. Só quem viveu sabe o fascínio que causa tais festivais.

Éramos nove, mas com o nascimento de meu primo passamos a dez. Nos espremíamos de qualquer jeito pelo sofá, pela cama, pelas redes. E era na rede, uma rede cinza, branco e azul, que eu passava horas a admirar aquelas goteiras. Muita coisa me ocorria enquanto pendulava pra lá e pra cá, e a isso se somava uma ânsia quase espiritual de qualquer coisa indefinida que me absurdava. Dessa sensação não sinto saudades, mas gostaria de revivê-la para ver se a compreenderia como hoje compreendo coisas que na época me eram indiferentes ou simplesmente incompreensíveis. É que depois de certa idade começamos a sentir saudades de coisas absurdas, bem como necessidade de compreendê-las.

Aos que me tomam por exagerado, devo confessar que essa não é a minha primeira saudade absurda. Tenho até alguma autoridade no assunto. Considere que já a senti por fichas telefônicas, orelhões, fitas cassete BASF e até mesmo estrelas. Já pensou? Saudades das estrelas... e talvez só quem saiu de um lugarzinho horizontal, precariamente iluminado, onde o céu está quase ao alcance dos dedos, para morar na metrópole da vertigem, a cidade coberta de nuvens e fumaças, é que entenda: dá pra sentir saudades das estrelas. E eu sinto. Sinto ao ponto de parecer maluco. De vez em quando sou pego na varanda, a cabeça virando para os céus de lá e de cá, desesperado, procurando estrelas. Uma, umazinha apenas, umazinha. Como um maluco.

E a doença é grave. Tão grave que já agora, enquanto finalizo esta crônica, me sinto tomado por uma saudade danada de, pasme, fogueiras. Deus do céu, que saudade das fogueiras da minha infância. Nas quais assei milho, nas quais lacrimejei de olhos avermelhados, nas quais joguei toda qualidade de bombinhas, nas quais fiz milhares de experimentos: queimar só pra ver queimar. Ver como queima. Elas mesmas, as fogueiras que tanto me queimaram. Talvez seja culpa de Junho aí em frente, mas nada explica a minha saudade das goteiras.