sexta-feira, 12 de junho de 2020

Tudo é lindo em nome do dinheiro

Os Beatles já diziam: all you need is money, money is all you need. Por isso que a volta do funcionamento dos shoppings na cidade maravilhosa foi adiantada de modo a viabilizar as vendas especiais para o dia de hoje. É que é dia dos namorados e o dinheiro, assim como o coronavírus, está no ar.

Imagino a reunião sobre a reabertura: 

“Reabriremos os shoppings dia dezessete, ok? É mais seguro.”

“Dia dezessete? E vamos perder as vendas do dia dos namorados?”

“Ops. Não tinha pensado nisso.”

“Pois é bom pensar. Já perdemos o dia das mães.”

“Senhores, com sua permissão. O relatório técnico salienta que uma reabertura em curva ascendente é um tanto precoce e pode resultar em...”

“Cale a boca. Ninguém pediu sua opinião.”

“... é que...”

“Solicite um novo relatório.”

“Perdão?”

“Um relatório que diga que é seguro abrir no dia dos namorados.”

“Mas já foi difícil conseguir um que falasse no dia dezessete!”

“Dobre a oferta.”

“Mas.”

“Triplique a oferta, ora pombas! Não podemos perder as vendas do dia dos namorados! Em nenhuma outra data é possível vender um cartão de dia dos namorados dois mil e vinte. É como calendário: se não vender, encalha.”

“Sim, senhor.”

Minutos após a saída do pobre Sensato (cargo comissionado, desnecessário dizer), os dois restantes se encaram silenciosamente. Até que:

“Acho que os cartões são datados manualmente.”

“Quê? Que cartões?”

“Acho que escrevem as datas à mão. Não perdem validade.”

“Ah, que se dane! Que se dane!”

E lá se vão abrindo todas as portas. Corrijo: portas específicas. O leitor, a depender de sua classe social, saberá quais permanecem fechadas. Afinal de contas, os empresários desse país precisam lucrar, e o dinheiro, assim como o coronavírus, precisa circular. Quer dizer: circular não é um bom verbo, pois o que circula, inevitavelmente volta. O dinheiro precisa... fluir. Acho que fluir é um verbo mais justo (pro dinheiro, pro coronavírus é circular mesmo).