quinta-feira, 4 de junho de 2020

Um conto de falhas

Por questões legais, no sentido jurídico e não no sentido de bacana, devo iniciar esta crônica alertando para o fato de que qualquer semelhança com a realidade não passa de mera e inequívoca coincidência. Vamos a ela.

Era uma vez uma madame muito madamesca. Tão madamesca que como toda madame madamesca tinha: 1. Uma cadela poodle e 2. Necessidades urgentes e inadiáveis, como fazer as unhas, para citar um exemplo qualquer. Para estas últimas, contava com a ajuda de uma preta. Em tempo: ajuda é modo de dizer, e a cor de sua cútis, sua raça, deveriam ser informações irrelevantes — era uma empregada, mas infelizmente é preciso que se diga: preta. A relevância dessa informação reside no contexto em que este conto se passa: um país onde a cor de tua cútis, tua raça, define não apenas o teu destino, mas a forma como irás vivê-lo, morrê-lo e senti-lo, muitas vezes não só na pele.
Voltemos ao conto.

Madame madamesca era tão madamesca que até seu nome deixava explícito sua ascendência madamística: tinha nome de roupa, sobrenome de morada de soberanos e conjunto de nobres, e moeda nacional. Juro: tinha sobrenome de moeda nacional. E era, evidentemente, branca (ver segundo parágrafo, a parte que fala sobre a relevância da cor da cútis nesse país imaginário). Como a maioria das madames madamescas desse país, nossa madame madamesca morava em bairro vertical (de edifícios, para os leigos) e nossa pobre empregada em bairro horizontal (de casas, por óbvio, já que em nosso país imaginário apenas dois grupos de pessoas moram em casas: os muito pobres, e os muito ricos — os que se encontram no largo espectro entre eles moram mesmo em edifícios).

A empregada de madame madamesca tinha um filho com nome de anjo, um lindo garotinho de cinco anos que sonhava ser policial ou jogador de futebol, e que ela chamava carinhosamente de “meu neguinho”.  Certo dia, num momento delicado em que nosso país imaginário (podemos chamá-lo de Nova Tebas) enfrentava A Peste (trazida por inúmeras madames madamescas dos quatro cantos do país, bem como por seus patrocinadores) e O Tirano (que chegara ao poder graças a uma loucura generalizada), nossa empregada precisou levar o seu filho com nome de anjo para a casa de madame madamesca, cujas necessidades urgentes e vitais, como fazer as unhas, para citar um exemplo qualquer, não poderiam jamais ser flexibilizadas, mesmo em contexto de peste. Naquela manhã, madame madamesca acordou preparada para ter um dia agitado: a manicure, responsável por deixar as mãos inúteis de madame madamesca absolutamente lindas, chegou cedo, e a empregada foi levar a poodle pra passear, fazer cocô, fixar vitamina d (o leitor pode dar a poodle um nome cafona qualquer). Como é um tanto impraticável passear ao mesmo tempo com um poodle deslumbrado e um agitado garoto de cinco anos em um desses bairros povoados por carros temperamentais, nossa empregada deixou o seu filho com nome de anjo sob a guarda temporária de madame madamesca. Minutos depois, o garoto com nome de anjo quis ir atrás da mãe, e madame madamesca, com a paciência típica das madames madamescas, o enfiou sozinho no elevador e — sabe deus por que — apertou o botão de algum andar superior do enorme, gigantesco, duplamente fálico prédio onde morava.

Sozinho, o garoto com nome de anjo desceu no nono andar, e foi a última vez que o vimos. Alguns dizem tê-lo ouvido gritar “mamãe” pouco antes de cair daquela altura de trinta e cinco metros, e o delegado responsável pelo caso acredita que o garoto com nome de anjo avistou sua mãe antes de gritar por ela, e caiu ao tentar se colocar numa posição mais favorável a um novo grito.

Madame madamesca foi presa, mas no nosso país imaginário não há nada que não se resolva com poder e dinheiro — e madamesca tinha ambos —, portanto também foi solta logo em seguida para responder o processo em liberdade.

Nosso garoto com nome de anjo virou anjo de fato, e nossa empregada viveu infeliz para sempre.