quinta-feira, 11 de junho de 2020

Uma vez amei com pureza

Quando trabalhei com meu pai no açougue, uma das minhas funções era moer carne. É um serviço simples, e qualquer criança pode fazê-lo, desde que tome cuidado para não enfiar a mão no moedor.

A carne era quase sempre moída na hora, a pedido do freguês. Meu pai então cortava o peso em pedacinhos, e eu os recolhia numa bandeja, pegava um saco plástico e me dirigia ao moedor.

Era um procedimento rápido, mas que me fascinava. Na parte de trás da máquina havia uma chave alavanca duas posições on/off, que eu ligava com autoridade enquanto com a outra mão cobria o saco plástico no bocal de saída — aquele que termina num disco cheio de furinhos, um pesadelo para quem sofre de tripofobia.

Eu então ia colocando os pedacinhos de carne na boca de entrada e esperava a máquina fazer o seu trabalho. Ela girava suas engrenagens, a faca cruzeta dilacerava os pedaços de carne que eu depositava, e o bocal de saída os vomitava em tirinhas dentro do saco. Este era o meu serviço favorito na rotina do açougue.

Isso porque havia uma barraca em frente ao balcão lateral, onde ficava o moedor, e naquela barraca trabalhava uma garota da minha idade que foi, sem que jamais o soubesse e durante todo aquele tempo, o grande amor da minha infância.

Não foi o primeiro. A primeira vez que olhei para uma garota e senti um afeto atípico, uma vontade intempestiva de acolher, cuidar e proteger, foi na escolinha, e eu devia ter uns quatro anos. Tanto foi a primeira que jamais a esqueci: chamava-se Lucrécia, era loira, tinha franjas, e sempre levava os cabelos presos num caprichado rabo de cavalo. Também lembro do que motivou aquele carinho que perdurou um ano inteiro e que só lhe confessei uns quinze anos depois (falarei dessa confissão tardia em outra crônica): ela chorava desesperadamente por algum motivo que nunca descobri, e as tias da escolinha tentavam a todo custo consolá-la. Seu choro era tamanho que transbordava dela e me enchia inteiro. Ainda lembro daquelas lágrimas banhando aquelas bochechas rosadas, daquela fita branca enlaçando seu rabo de cavalo, de uma liga de saliva entre seus lábios. Por algum motivo, nunca esqueci daquela liga de saliva, talvez porque era a única coisa em seu choro que a humanizava. É que Lucrécia era um anjo loiro em nossa pequena comunidade de pardos.

Mas voltemos ao grande amor de minha infância. Dela, nunca soube nada além do que observava através da grade do nosso balcão lateral. Nada. Nem mesmo o nome. Gosto de pensar que se chamava Maria, como no poema de Nicanor Parra (“Não me recordo seu nome, mas morrerei chamando-a Maria”). É que tinha cara de Maria, olhos de Maria e até mesmo raros sorrisos de Maria. Mas acima de tudo: tinha a tristeza de Maria. Foi o que me convenceu a chamá-la assim.

Todos os dias eu a observava enquanto moía carne. Por poucos minutos, mas várias vezes ao dia. Sempre que meu pai me mandava fazer carne moída, eu voava exultante para o moedor. Exceto quando ela não ia — às vezes ia um de seus irmãos em seu lugar —, nesses dias eu passava a manhã inteira amuado. Acho que meu pai nunca descobriu o motivo.

Era uma garota delicada, magra, gostava de azul. Atendia os seus clientes com objetividade, e no lanche normalmente comia uma coxinha com um café fumaçando num copo descartável. Uma de suas características mais marcantes era o seu silêncio. Nunca conheci ninguém mais silenciosa. Naquele ambiente de feira, era raro que as pessoas não se comunicassem aos berros, e ela, quando falava, falava tão baixo que nunca ouvi sua voz.

Várias vezes pensei em pegar algum dinheiro e comprar-lhe alguma bobagem para tentar me apresentar, puxar assunto. Infelizmente sua pequena barraca só vendia cacarecos esquisitos demais para uma criança, e meu pai certamente teria achado muito intrigante se eu comprasse um isqueiro ou uma chave para registro de botijão de gás. De modo que não, nunca trocamos palavras.

Mas sonhei, Maria, como eu sonhei. Em minhas idas e vindas do açougue, sujo de sangue bovino na linha Planalto, eu olhava o mundo através da janela do ônibus e sonhava com uma vida ao seu lado. Você, com seu silêncio; eu, com a minha introspecção. Seríamos o mais silencioso dos casais, um casal monástico. Eu te apresentaria os livros, e você me apresentaria as razões do seu silêncio. Teria dado certo. Pois te amei com a pureza de quem nunca amou na vida.