quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Plantação de mim


Tenho visões. Elas não são comuns no dia a dia, mas de vez em quando se impõem aos meus olhos “do nada”. Às vezes elas vêm em sonhos, noutras quando estou acordado, e só são comuns de fato quando faço uma meditação verdadeiramente profunda. Naturalmente, evito falar ou escrever sobre elas, mas talvez esteja na hora.

Hoje, enquanto meditava, vi o seguinte: eu estava sentado em posição de lótus no alto de um totem de mármore, cujo capitel era semelhante ao de uma coluna jônica, mas em cujo fuste estavam esculpidas a cabeça de vários animais. São alguns que identifiquei: coruja, lobo, galo, águia. Na base, dois leões brancos, também de mármore, rugiam, erguidos em suas patas traseiras. Eu me via de longe, como se me sobrevoasse, e na medida em que me afastava, pude perceber que na verdade havia, separadas por uma distância de 30 metros uma da outra, centenas, milhares, milhões de outras colunas nas quais eu mesmo meditava em posição de lótus.

Eram várias versões de mim: magro, gordo, forte, fraco, barbudo, imberbe, cabeludo, calvo, careca, jovem, velho, adulto, criança, bebê. Eram tantas as versões que em muitas delas era impossível identificar alguma diferença óbvia. O céu era negro por todos os lados, mas de vez em quando uma serpente de fogo cruzava a escuridão, às vezes numa direção, às vezes noutra. Era uma serpente enorme e assustadora, mas estava ocupada exclusivamente em serpentear por toda aquela vasta negritude. Todas as minhas versões meditavam de olhos fechados.

Vale explicar: essas visões não são coisas que eu construo de forma consciente. São imposições, como num sonho. Acontecem, e apesar de eu sentir que tenho o poder de fugir delas, simplesmente não consigo (ou não quero o suficiente). Deslumbrado com sua força, normalmente me limito a explorar todos os cenários de forma ativa, mas sem refletir a respeito, formar juízos, esse tipo de coisa.

Hoje, contudo, me obriguei a refletir: tenho lido Schopenhauer, tenho tentado refazer minhas pazes com Buda, enfrentado alguns imprevistos, ansiado por soluções e caminhos (para a vida e para o que considero ser a minha vocação), e buscado, todos os dias e acima de todas as coisas, seguir o conselho de Apolo: γνῶθι σεαυτόν.

E talvez essa visão seja um desafio nesse sentido: todos os tu estão aqui plantados e ensimesmados, mas quem és tu?