segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Justiça por Cristiano Nóbrega

Eu não ia escrever sobre o caso porque nutria esperanças de que tudo se passasse da forma mais discreta possível, e que se resolvesse numa velocidade compatível com sua gravidade. Mas onde eu estava com a cabeça ao superestimar a aplicação da justiça neste país, não é mesmo?  Se escrevo agora é apenas para trazer um testemunho, uma luz sobre o caso (na tentativa de corrigir certos equívocos da imprensa, e de terceiros, com a verdade pura e simples, vivida e testemunhada em primeira pessoa), e, evidente, alguma notoriedade e apelo, pois às vezes essas coisas funcionam, e se algo do que eu escrever aqui contribuir para levar alguma justiça ou compreensão ao caso,  terei alcançado enfim meu objetivo. Meu único objetivo.

Cristiano Almeida Nóbrega foi preso após assaltar um supermercado em João Pessoa. Munido de um facão e vestindo uma máscara de gladiador, ele recolheu algum dinheiro e, em seguida, o atirou ali mesmo.  Alguns vídeos foram feitos no local: num deles, vemos Cristiano atirando dinheiro ao chão e alguns funcionários da limpeza recolhendo. Em outro, vemos ele sendo algemado e preso pela polícia. Na TV, algumas matérias foram feitas. Elas explicam, com uma atitude agressiva muito usada por jornais do tipo pinga-sangue, que “um professor foi preso por assaltar um mercado”. Numa delas, o repórter chega a provocá-lo, insinuando qualquer coisa que não compreendi muito bem (talvez porque não tinha o que insinuar, talvez porque fosse um caso atípico em sua rotina, para o qual ele não estava preparado). Pois bem.

Quem é Cristiano Almeida Nóbrega, e por que ele “assaltou” um supermercado? Peço que leiam com atenção o que segue:

Cristiano Almeida Nóbrega é um professor de inglês formado pela UFPB, e um desenhista talentoso. Mas não é só isso: Cristiano também é meu amigo de infância, e sofre de problemas psiquiátricos.

Sim, indubitavelmente.

Cristiano não é um bandido, não é um criminoso, muito pelo contrário: nunca fez mal a uma mosca.  Podem checar seus antecedentes. Mesmo que nossa infância não tenha sido ideal (crescemos em um bairro operário de Santa Rita-PB), nunca partimos para a violência ou o crime, o que, diga-se, não era incomum em nosso bairro. Nosso refúgio foram as artes: tivemos banda de rock e, quando desistimos dessa ideia, ele decidiu ser desenhista e eu decidi ser escritor. Ambos seguimos nossas vidas, juntos por quanto foi possível (eu me mudei para o Rio de Janeiro, onde ainda resido), e ele se tornou, sim, desenhista, apesar de ter conseguido viver disso por muito pouco tempo. Quando éramos adolescentes, passávamos literalmente o dia inteiro na Biblioteca Municipal Ariano Suassuna. Enquanto eu lia tudo o que achava interessante, ele desenhava todos que achava interessante. Também foi ele quem me apresentou um dos meus livros favoritos da infância: Férias em Xangri-Lá, da Teresa Noronha. Nós amávamos aquele livro.

Não temos muitas fotos da época em que éramos garotos, pois éramos pobres, não tínhamos condições de ter uma câmera e, quando alguém aparecia com uma, eram aquelas analógicas com um número limitado de poses. Apesar disso, tiramos algumas, como essa:

Da esquerda para a direita: eu, Cristiano, Francisco. Estamos no centro histórico de João Pessoa. O passeio e as fotos foram bancadas por Francisco (o mais velho do grupo), que acabara de receber uma rescisão da fábrica onde trabalhava.


Mas na fase adulta, quando saíamos, já tínhamos celulares e coisas assim. Então era mais fácil tirar fotos, como essa:

Que tiramos quando fomos assistir à apresentação da Orquestra Sinfônica lá no mesmo centro histórico, mais de uma década depois da primeira foto.


Quando ele casou, fui testemunha, eu estava lá. Seu casamento, infelizmente, não durou, algo pelo que ele sempre se sentiu culpado: com um filho pequeno que ele amava mais que qualquer coisa, tentou lutar com as armas que tinha (no caso, o desenho), mas acabou derrotado. Derrotado, mas um bom guerreiro: recuperou o fôlego e continuou tentando: estudou computação, design gráfico, fez escola técnica e, depois, partiu pras Letras. Formou-se: Inglês, UFPB.

Ele fez a ilustração de alguns textos meus, como estes, para uma crônica chamada O sonho de Minnie Mouse:

 



E também fez a capa da primeira edição de A orquestra dos corações solitários. Esta:

 


Como podem ver, ele era bom.

Mas deixou o desenho de lado e tornou-se professor: deu aulas de informática e, por último, inglês, no que também era bom: para além da limitação de uma formação regular, ele tinha a vantagem de ter praticado muito a conversação com americanos nativos (da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, que frequentava), e foi do cargo de professor de inglês, presencial e à distância, que ele foi demitido antes de ter um surto psicótico e cometer o “crime” pelo qual encontra-se preso no Presídio do Roger, ao lado de traficantes, homicidas, estupradores.

Volto a repetir: Cristiano não é bandido.

Ele sofre de esquizofrenia congênita (herdou-a do pai, do qual cuidava), que em períodos de crise se manifesta. A primeira vez que isso aconteceu, tínhamos 15 anos e foi causada por uma paixão não-correspondida. Foi uma experiência que nós, nosso círculo de amigos, não conseguimos compreender muito bem (pegue um grupo de moleques de um bairro operário do final dos anos 90 e lhes apresentem o conceito de “loucura” ou comportamento “estranho” e vejam como eles lidam com isso). Mas ele nunca ficou violento: na época, comportou-se de forma estranha, às vezes inconveniente, e falou coisas incompreensíveis e sem o menor sentido, mas não passou disso. Quando se tratou e se recuperou, voltou ao seu normal e seguiu com a vida. Nesses anos todos, soube apenas de uma breve recaída, que ele logo cuidou de tratar.  Mas então veio 2020: com a pandemia, o caos econômico, o desemprego, a beligerância e instabilidade política que todos nós, brasileiros, conhecemos bem e que grassa o país do Oiapoque ao Chuí, não deu outra: Cristiano surtou novamente. Dessa vez, a origem de seu surto parece ter viés político, pois em suas entrevistas declarou ódio a “fascistas”, se autodeclarou comunista e daí por diante. Também falou sobre estar passando fome.

Entenda: Cristiano não é bandido.

Ele está preso como um, mas não deveria. Ele não precisa de “cadeia”, ele precisa é de TRATAMENTO e, assim que se recuperar, de um emprego. Isso precisa ficar bem claro.

Mas apesar disso, ele está preso (desculpem a repetição, mas é preciso não sair desse ponto) e pelo que entendi o juiz indeferiu seu habeas corpus por não ser um caso urgente. Pergunta retórica: Um caso urgente seria mesmo um “caso”?

(Minha formação jurídica, apesar de não exercê-la, é sólida o bastante para que eu possa nutrir certas convicções e ceticismo acerca de algumas coisas).

De todo modo, isto aqui é um apelo: um apelo para que seja feita a justiça, para que Cristiano volte pra casa, para que faça seu tratamento e daí por diante.

JUSTIÇA POR CRISTIANO NÓBREGA!