quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Colecionando vidas

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Sou um colecionador de vidas. Quando digo isso, as pessoas se surpreendem, não entendem o que quero dizer, acham que estou sendo leviano ou, pior, poético. Que fique claro: o que quero dizer é exatamente o que eu disse, nem uma vírgula a mais: sou um colecionador de vidas.

O Cristiano Mínelo é testemunha: sempre que passávamos de ônibus pelos arredores da Lagoa (Parque Sólon de Lucena), eu apontava para a multidão e declarava: “Só imagina se cada um deles, cada um a seu modo, mantivesse o hábito de escrever diários onde registrassem suas vidas, suas reflexões, pensamentos mais obscuros, encontros amorosos, opiniões sobre as coisas e as pessoas de seu convívio. Só imagina a riqueza de informação que teríamos acerca do espírito humano!”

Mínelo normalmente dava de ombros, às vezes observava: “Toda vez que passamos por aqui...”

Eu não conseguia evitar. Eu mesmo escrevi meus diários de forma obsessiva até mais ou menos os 21 anos. Depois juntei todos numa fogueira e fuuush, queimei tudo. Nunca mais consegui recuperar o hábito por completo. É verdade que voltei a escrever alguns meses (anos?) depois, mas normalmente penso que tudo não passa de uma bobagem inútil, que minha energia deveria ser dedicada quase que exclusivamente ao trabalho criativo, que deveria substituir esse registro autobiográfico por sessões semanais de análise (lacaniana, por favor). Esse tipo de coisa.

Mas o outro, ah, o outro. O outro acho interessantíssimo. Até trocaria minha individualidade ativa, autoconsciente, para ser um olho que a tudo observa, passivo, sem julgamentos ou conclusões: apenas um observador onisciente, que não se compraz, lamenta ou interfere, para o qual “não há frente nem costas” (ver Saramago), como um deus. É que conhecer o outro é um aprendizado sobre si. Impossível que não o seja. Minha convicção se assenta sobre um único fato: há sim uma natureza humana, humana e portanto animal. Animal e portanto natural.

Natureza.

Homo sum: nihil humani a me alienum puto.

Nada mesmo, mas sinto um prazer voyeurístico em ver, ouvir, conhecer. Dizem até que daria um bom psicólogo. Talvez tenham razão, vai saber. No momento, limito-me a colecionar vidas: ouço histórias de dor e esperança, ouço respostas a tudo, e me engrandeço sempre. Um dia, quem sabe, essas respostas e declarações provavelmente voltarão: numa frase, num personagem, num conflito.

Aqui uma delas:

Certa vez, uma mulher com cerca de 45 anos, casada desde os 16 com o mesmo homem, me levou à cama. Eu era então um jovem de 17 anos, e enquanto eu a penetrava, ela se dividia entre o choro e o riso. Chorava e me abraçava com tanta força que eu tinha a sensação de que queria me tornar parte de si. Às vezes fechava os olhos e sorria, um sorriso puro, sincero e um tanto sonhador. Quando terminamos, ela não quis me deixar ir embora, me beijava a todo instante, me abraçava, cheirava, perguntava quando eu voltaria. Nunca voltei. Tinha minha própria vida amorosa para dar conta e nunca voltei, mas também nunca esqueci o modo como fui amado durante aquelas poucas horas em sua cama.

A história aconteceu? Sim. Comigo? Talvez. Que importa? O que importa é que alguém viveu esse momento, e que hoje ele me serve. É aquilo que dizem: se um escritor se interessar por você, você jamais morrerá. Jamais.

Assim, sigo me interessando por tudo. Muitas vezes, em meio a uma conversa banal sobre um tema banal, algo me é dito e plim, a luzinha interior acende: temos algo ali. Chame de inspiração, se quiser, eu prefiro não dar nome algum, apenas seguir colecionando e me valendo disso quando achar necessário: sempre em favor da criação, nunca em prejuízo da vida que me foi, direta ou indiretamente, confiada.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Não há alegria na Terra que justifique tantos risos

Já falei delas aqui: minhas vizinhas. Por algum motivo que ainda é um dos maiores mistérios da minha vida, elas gargalham loucamente todos os dias a partir das 00:00, e seguem gargalhando até por volta das 03:00. É um inferno.

Qualquer dia desses vou bater-lhes à porta:

— Por favor, queridas, já não aguento mais, o que, por deus, é tão engraçado?

Levarei no rosto uma expressão sobretudo ansiosa, e elas rirão ainda mais, se curvarão sem fôlego enquanto riem do trouxa rabugento da madrugada, do curioso imperdoável e seu pijama horroroso, de sua cara de pau:

— Isso são horas de bater na porta de alguém, meu senhor?

— Tanto quanto são horas de gargalhar feito um alucinado —, eu responderia.

E essa é que é a questão: que horas são horas de gargalhar assim? Não há alegria na terra que justifique tanta hilaridade. Ou será que o problema sou eu? Talvez seja, por isso me pus a pensar: “O que me faria gargalhar assim?”, e não encontrei nenhuma resposta que não envolvesse algum psicotrópico.

Pensando bem, talvez aí esteja a resposta para o grande mistério...

Bobagem. Haveriam outros sinais.

De todo modo, o brasileiro ri na mesma proporção em que faz piadas. É, antes de tudo, um gaiato. Foi graças a esse espírito humorístico que construímos essa nação, e é graças a ele que ela se mantém em pé e, mesmo capenga, caminha — sabe-se lá em direção a quê. Somos o equivalente a Nero tocando sua lira enquanto Roma arde, só que ao invés de tocar lira, fazemos piadas e gargalhamos alucinadamente.

Daí que chego à conclusão inevitável: não há na terra tanto motivo de riso, eu disse, mas certamente há razões de sobra para o desespero.

Taí: é de desespero que gargalhamos.

HUEHUEHUEHUEHUEHUE.

Também eu sou um desesperado. Esta noite, baterei acanhado à porta das minhas vizinhas.

— Olá, posso rir com vocês?

E gargalharemos nossos desesperos juntos até às 03:00 da madrugada.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Brincadeira de Criança

As crianças do condomínio estão armadas. Digo, os pais as presentearam com coloridas reproduções de armas de fogo. “Ah, são de plástico”, dizem, “são apenas armas de brinquedo” — o que sempre me causa uma enorme confusão mental: arma de brinquedo? Bom, de todo modo, estão armadas, e brincam de, pasmem, polícia. Não uma polícia qualquer, mas de Polícia Militar do Rio de Janeiro.

Juro. Ontem tive oportunidade de observá-las. O dia estava quente, eu estava de folga, resolvi descer à alameda para tomar um sorvete e terminar a leitura de O Livro de Areia, do Borges. A criançada, meninos e meninas, brincava solta, e dividiam-se em dois grupos: os armados e os motorizados. Motorizado é modo de dizer, naturalmente, mas estes por sua vez dividiam-se em os de patinete, os de bicicleta, e os de hoverboard — algo que parece ter saído diretamente de algum filme de ficção científica.

Bom, brincavam de Polícia, eu dizia, e a brincadeira consistia no seguinte: os armados haviam montado uma blitz e inspecionavam os motorizados sempre que estes davam uma volta na alameda. A abordagem era agressiva — ouvi alguns termos que soariam naturais em quartéis, mas que soavam ridículos na boca de crianças —, e quando um deles resolveu furar a blitz, p-a-s-m-e-m, um garoto do grupo dos policiais o encheu de balas imaginárias, acionando um dispositivo da sua .12 cor-de-laranja que simulava barulhos artificiais de tiro.

Fiquei perplexo. Perplexo porque mais cedo havia lido sobre um policial que acabou matando uma garota de 9 anos numa situação parecida — ela ia no banco de trás do carro dirigido pelo pai, que não quis parar na blitz por causa do bebê, que estava no colo da mãe e não na cadeirinha, como manda a lei.

Perplexo porque nunca imaginei que o absurdo em que estamos vivendo estivesse tão naturalizado a ponto de ter virado brincadeira infantil.

Perplexo pelos pais — havia alguns deles na alameda — não terem se dado conta desse absurdo.

Dizem que exagero em minha perplexidade. “Ah, Denser, são apenas crianças etc.”

Verdade, são apenas crianças. Isso só aumenta ainda mais minha perplexidade: não pelo que as crianças fazem, mas pelo que os adultos ignoram.

Mas está tudo bem, estou exagerando em minha perplexidade, claro, afinal sou um exagerado por natureza.

O problema é que, não faz muito tempo, pegaram outras crianças brincando de tráfico de drogas — usavam saquinhos com açúcar para simular cocaína —, e a julgar pelo andar da carruagem em breve estarão brincando de homicídio ou, pior, de Congresso Nacional.

Será mesmo que exagero? Espero, de verdade, que sim.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Saudades de Paris

Hoje acordei com saudades de Paris. Saudades de suas ruas — das largas e das estreitas —, de suas luzes, seu clima e seus cafés. Principalmente de seus cafés, onde toca-se boa música e troca-se um bom papo enquanto se come um croissant estalando de crocante. Dos garçons arrogantes de Paris, que saudade, dos fumantes elegantes de Paris. E das moças de boina de lã vermelha de Paris, por que não? Parece um filme a Paris da minha saudade.

Andar pelas ruas de Paris é sentir-se protagonista de sei lá que filme, é sentir-se artista importante, galã ocidental. Sou pelo menos dez vezes mais intelectual em Paris, e meu gosto musical se refina. Em Paris, sinto vontade de voltar a fumar, de gritar C’est la vie!, dizer Je t’aime a qualquer coisa, recitar Rimbaud em voz alta. Também me sinto mais erótico em Paris, mais sexy. Paris me melhora.

Que saudades de Paris.

Saudades das galerias de arte, saudades da Torre Eiffel, saudades de sentar onde Hemingway sentou, onde Fitzgerald sentou, e de comer onde Henry Miller passou fome.

Que saudades dos meus casos fortuitos de amor em Paris. Saudades de fazer amor com uma mulher mais velha, casada, em Paris. Uma mulher cujo marido sabia de suas puladas de cerca com o amante estrangeiro, mas não fazia nada, pois também sabia que jamais poderia concorrer com o artista que fugiu de uma terra selvagem, exótica, tropical.

Que saudades de duelar pela honra em Paris, de morrer sangrando no peito em Paris, enlouquecer em Paris.

Uma pena que nunca estive em Paris. Uma pena que a Paris da minha saudade seja a Paris do cinema e da literatura, do pedantismo do intelectual da elite, e do estudante de intercâmbio. Uma pena que a Paris da minha saudade seja a Paris sonhada na adolescência pobre em Tibiri, assistindo as raras fitas VHS de filmes franceses — garimpadas na locadora do Crê — e lendo Alexandre Dumas.

Talvez um dia eu sinta saudades da verdadeira Paris, mas até lá sigo com saudades verdadeiras apenas de Tibiri.

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Espírito Natalino

“Você pode me recomendar alguns livros pros meus netos?”

O livreiro virou-se em direção à voz e deu de cara com uma senhora de cerca de 50 anos, bastante vívida, carregada de sacolas. Numa simples olhadela, identificou nomes como Zara, Gucci e Sephora em grandes e imponentes sacolas pretas.

“Claro, qual a idade dos seus netos?”

“Dois anos um, sete meses outro”, disse.

“Hum, me acompanhe, por favor.”

No caminho até a seção infantil, que não era seu departamento, pensou nos livros que indicaria: coloridos, sem texto, de material resistente, talvez algum que funcionasse através da interação de um adulto com a criança, como são os livros com fantoches.

“Aqui, esses livros são feitos para bebês”, disse, mostrando alguns livros de banho, “Eles podem molhar, morder...”

“Quanto custa?”

E foi mais ou menos assim que passaram os próximos dez minutos: ele apresentando alguns livros, ela perguntando os respectivos preços. Explicou que estavam baratos, que queria algo na casa dos 60 ou 70 reais. Após algumas tentativas, encontraram os livros que a deixaram satisfeita ­— mais pelo preço que pelo conteúdo.

Já estava se dirigindo ao caixa quando se interrompeu subitamente e voltou ao livreiro.

“Esqueci o do filho da empregada. O que você tem na casa dos 15 ou 20 reais?”

O livreiro respirou fundo.

“O garoto já lê?”

“Lê ele já lê, mas você sabe como são essas classes inferiores.”

Não, o livreiro não sabia, pelo menos não no que diz respeito a fosse lá o que diabos ela estivesse tentando dizer. Com um nó na garganta cada vez maior, mostrou alguns livros — que por mais simples que fossem sempre estavam na casa dos 30 reais —, e teve que explicar que, em geral, livros infantis são mais caros que livros adultos.

“Ah, vou procurar outra coisa então.”

E lá se foi ela e suas sacolas em direção ao caixa, sem agradecimentos e sem despedidas.

***

Trata-se de uma história real, desnecessário dizer, e me atingiu sobremaneira que passei metade do meu natal com lágrimas embargadas em algum lugar entre a garganta e os olhos.

Foi inevitável lembrar de certas experiências da minha própria vida, claro, afinal eu mesmo já fui aquele garoto. Digo, minha mãe nunca foi empregada doméstica, mas eu já pertenci à tal “classe inferior” a qual ela se referia, qual seja: a do pobre.

É uma história longa, complicada, cheia de detalhes e que talvez só interesse a certos indivíduos da minha família, mas mesmo assim: houve uma época em que o mais próximo que eu podia chegar dos livros era, bom, não era. Simplesmente não havia livros por perto.

Daí que bem mais tarde, quando já estudava em uma escola pública municipal chamada Machado de Assis — durante a competente gestão do Diretor Mariano —, vi alguns poucos livros relativamente disponíveis (podíamos folheá-los durante o intervalo, mas nunca pegá-los emprestado), e sempre que possível os levava para casa escondido, onde lia de uma única vez, devolvia no dia seguinte e pegava outro. Uma nova modalidade de infração: o furto-empréstimo (estou com preguiça de inventar uma palavra melhor).

Até hoje desconfio de que a secretária sabia de meu comportamento, mas o encorajava tacitamente com sua discrição.

De qualquer forma, os livros chegaram a mim ou eu cheguei a eles, não importa: nos apaixonamos à primeira vista e estamos casados desde então. Apesar de só bem mais tarde ter alcançado condições de comprar livros, li quantos me caíram em mãos. Hoje, guardo a impressão de que os livros estão para mim como o pão com ovo para o Nelson Rodrigues: uma obsessão nascida da carência.

O resultado? Trabalho com eles, não consigo parar de comprá-los, e a leitura ainda é o maior de todos os meus prazeres. Já deixei muitos amigos esperando na mesa do bar para poder ficar em casa numa noite de sábado com a cara enfiada em alguma brochura.

Ainda hoje de vez em quando me aparece alguém oriundo do que a madame da história acima chamaria de “seus iguais” ou simplesmente de “a classe superior” e me confessa, como se se tratasse de um crime (e a meu ver não é outra coisa): “Nunca li nenhum livro.”

Em meu íntimo não consigo evitar certo desprezo por essas pessoas. Não me interpretem mal: o problema não é nunca terem lido um livro — algumas pessoas não podem se dar esse luxo —, mas, tendo condições para tal, evitarem-no durante uma vida inteira. Isso enquanto ainda há garotos como os da história acima.

Confesso: não sei se ele iria preferir o livro a qualquer outro brinquedo, mas sei a diferença que um livro, um simples livro pode fazer na vida de uma pessoa, e na vida de todos, portanto.

Feliz natal.