sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

A Biblioteca Essencial



Um dos meus sonhos mais antigos é ter uma biblioteca pessoal espaçosa e bem nutrida. Nela, passaria as melhores horas do meu dia, imerso nos livros que considerasse importantes, ou simplesmente de acordo com meu estado de espírito. Um bunker, misto de refúgio e fortaleza e, portanto, também um deus: esse objeto que, dizem, deve ser não somente alvo de devoção, mas também fonte de júbilo.


Sua decoração seria a mais clássica possível: pesadas estantes de madeira, volumes encadernados em couro e gravados em ouro, vitrine para os volumes raros, primeiras edições de clássicos autografados por seus autores, e edições centenárias de livros milenares.

Naturalmente, não vai acontecer. Mas me contento com um pequeno espaço dedicado aos livros, onde quer que eu me esconda. Quanto aos títulos, bom, devem ser muitos e tematicamente variados. É o que recomendo a pessoas como eu, cujo maior defeito é não ter uma única obsessão ou interesse. Sim, por isso a especialização em seja lá o que for, para mim, seria um pesadelo. Dependesse exclusivamente de vontade, conheceria tudo sobre todas as coisas; como tal não é possível, me contento com o tanto que me cabe. De modo que, sim, a biblioteca essencial é, antes, uma pequena fonte de tudo o que compõe meu leque de interesses. Por isso compro livros que sabe lá quando lerei, mas que lerei um dia. É o caso, por exemplo, dos Diários de Rosenberg e das Confissões de Rousseau, dos poemas de Adonis e Kaváfis, de A Crítica da Razão Cínica e de A mais breve história da Europa. Lerei. Sim, em algum momento da vida eu certamente estarei no estado de espírito apropriado, assim como há alguns meses eu estava no estado de espírito apropriado para ler sobre o cérebro humano e as mais novas descobertas da neurociência, assim como hoje estou num estado de espírito que clama por tudo o que diz respeito a sexo e sexualidade (e por extensão, visto que minha novela atual em certo aspecto trata disso, perversão).

Então é preciso, até certo ponto, se conhecer. Até certo ponto porque se conhecer por completo é impossível. Uma biblioteca bem abastecida ajuda, e tem me ajudado: por inúmeras vezes, após ler um livro marcante, me peguei passeando os olhos pelas prateleiras ou pilhas que me cercam e pensando “E agora? O que lerei agora?”. Nem sempre é óbvio, nem sempre é fácil. Já passei de um clássico difícil para um bobo romance policial, de um tratado filosófico para uma graphic novel, mas essa transição, no meu caso, está ligada quase que exclusivamente ao meu estado de espírito ou curiosidade (há, é claro, quem se ligue a um projeto individual de formação intelectual etc., o que é igualmente válido).

Assim, a biblioteca essencial tem os clássicos, mas também bons contemporâneos. Tem os relevantes da filosofia, mas também os da Ciência. Tem antropologia, mas também cinema e artes plásticas, teatro, música, crítica literária. Isso porque um interesse inevitavelmente seguirá a outro (creio valer pra todo mundo), e a ignorância é um abismo que jamais conseguiríamos nivelar, mas sobre o qual é possível construir uma ponte. Tento construir a minha bem sólida, pois tenho medo de altura.