quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Trecho extraído do meu diário

Pertenço a uma geração cujos pais tentaram a qualquer custo impedir que virássemos adultos. Eles nos criaram com muita benevolência e apego, cegos pela percepção enganosa de que o amor, o cuidado e a proteção, só poderiam resultar em coisas boas. Assim, nos amaram da maneira errada, privilegiando o resultado imediato em detrimento do final: perdoavam nossos erros pura e simplesmente, e muitos de nós chegamos à vida adulta sem conseguir distinguir entre erros e acertos, ou sem maturidade para aceitar os resultados negativos de uma má conduta. Eles, que quiseram nos proteger até mesmo do trabalho, nos fizeram desdenhar o ganha-pão. Uma vez que éramos merecedores natos de benesses mil, dificilmente percebíamos a relação causal entre o suor e o trigo. 

Também não fomos educados para amar, mas para sermos amados. Sem motivos, como um deus. Fomos os deuses de nossos pais. E como não conhecemos limites, nos tornamos tiranos uns dos outros. E assim vivemos hoje, tiranos sem reino, desacostumados ao contraditório, ansiosos, depressivos, e frustrados com a percepção dolorosa e latejante de nossa própria banalidade.