segunda-feira, 24 de junho de 2019

De volta ao Campo de Centeio




Tive a sorte de ler a mais famosa obra de Salinger no momento certo: quando eu era um adolescente solitário e entediado, um tanto angustiado com sei lá quê, e cheio de opiniões sobre qualquer coisa.

Lembro exatamente do meu primeiro contato com essa obra: numa livraria Siciliano, em João Pessoa, um livro que peguei por acaso, e que me pegou de volta já em seu primeiro parágrafo. Infelizmente, estava com o dinheiro contado para uma meia-entrada no cinema, uma pipoca média, e a passagem de ônibus de volta pra casa. Não pude levá-lo comigo naquele dia.

Dois ou três anos depois, por indicação de Francisco, um amigo de infância, aluguei uma fita cassete na Locadora Alexandra, em Tibiri, de um filme com Mel Gibson e Julia Roberts que, segundo ele, me daria muito o que pensar. O filme chamava-se Teoria da Conspiração, e o personagem de Gibson era obcecado por O apanhador no campo de centeio. Lembrei no mesmo instante: era aquele livro, putz, aquele livro...

Eu sei que pode soar inverossímil que eu me lembrasse de um livro que peguei por acaso numa livraria enquanto esperava uma sessão de cinema e do qual só lera os parágrafos iniciais, mas juro que é verdade. Creio que me lembrava sobretudo por causa do título, que havia me soado belo e um tanto misterioso, pois não dizia, por si só, absolutamente nada, mas também por causa do tom debochado do narrador, que diferia de tudo que eu havia lido até aquele momento.

Depois do filme — que, diga-se, gostei bastante —, prometi a mim mesmo que um dia leria aquele livro. Um dia, sim, pois na época não era tão simples: eu era pobre, provinciano, e livros no geral eram caros ou inacessíveis. E creio que se passaram mais uns dois anos até que uma cópia do livro me caiu em mãos. E li. Li, e o fiz de uma sentada. Quase sem parar pra respirar ao fim de cada parágrafo. Mais tarde, encantado pela obra, por um narrador com o qual me identificava tanto e querendo comentar, espalhar a palavra de Holden Caulfield, indiquei o livro a vários amigos, e consigo lembrar de pelo menos um que teve sua vida transformada pela obra. Era o mais Holden Caulfield de nós, e tornou-se o maior especialista em Salinger de nosso bairro. Com o tempo, foi ele quem conseguiu os livros mais difíceis, foi ele quem trouxe as informações mais inusitadas sobre o autor, e foi ele quem me falou de Seymour Glass pela primeira vez, e de Buddy e Zooey e Franny e de toda a família Glass, e do suicídio de Seymour numa pousada em A perfect day for bananafish. E era inacreditável e fascinante tudo o que envolvia não apenas a obra de Salinger, mas os mistérios e descaminhos de sua própria vida.

Mais tarde, li os outros livros dele. E quando me mandei para o Rio de Janeiro, já beirando os 30, foi uma edição importada de Catcher in the rye que levei comigo. Reli em inglês nos meus primeiros dias na Cidade Maravilhosa, e fiquei com a sensação de que a tradução que eu havia lido anos antes em muito perdia pro original. Pensava que a maior força de Salinger naquele livro, a voz narrativa que tanto individualizava Holden a ponto dele parecer vivo, se perdia e por vezes soava artificial. Salinger precisava de uma nova tradução, com um tradutor bom, que conseguisse reproduzir com perfeição a vivacidade do Holden original, e foi com imensa satisfação que soube que a Editora Todavia estava para lançar uma nova edição, com tradução do Caetano W. Galindo, que já atravessou, com brilhantismo, obras de Joyce e David Foster Wallace para a nossa língua.

Pois bem, recentemente recebi um exemplar da nova edição e a primeira coisa que fiz foi me deliciar com seu projeto gráfico, seu material (em tempo: os livros da Todavia têm a melhor “pegada” do mercado com esse papel munken print cream maravilhoso), e seu cheiro. No caminho de casa, comecei a ler. E, mais uma vez, li. De uma sentada, totalmente absorvido por um livro que, pasmem, lia pela terceira vez, mas que parecia ser a primeira. E que alívio, que alívio saber que finalmente, finalmente Holden estava vivo em nossa língua. Vivo, com todo o seu desdém, com todas as suas idiossincrasias, e com a estranha sensibilidade que lhe é tão característica. Obrigado, Todavia, Galindo, por me proporcionarem uma experiência que eu considerava impossível: a de reler um livro pela primeira vez. Certeza que, a seu modo, Salinger ficaria orgulhoso.